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terça-feira, 16 de agosto de 2011

"Eu insisto em caminhar!"

Caí de gaiato numa entrevista para o Jornal do Almoço aqui de Santa Maria. 

Como de costume nestas situações de luto coletivo, a imprensa tradicional - o PIG - tende a criar e amplificar um clima de tensão e medo imobilizadores, que não permitem - nem querem - o aprofundamento das discussões sobre violência/segurança pública.

Não se questiona as motivações da delinquência; não se buscam alternativas nem propostas. Apenas reverberam a linha editorial de espalhar o medo!

E o pior de tudo não é o que acontece nas entrevistas de rua. O pior ocorre nas ilhas de edição de cada emissora e/ou retransmissora. Dos vários depoimentos colhidos na noite de segunda-feira pelo centro de Santa Maria todos apontavam para os "perigos" de se estar na rua" (sic); o temor que é "enfrentar as ruas"; alguns chegavam a apontar um certo "toque de recolher" sugerindo horários e locais nos quais as "pessoas de bem" ainda podem estar na rua com "menos risco".

Note-se que a cidade ainda guardava um sentimento de choque pelo trágico assassinato ocorrido um dia antes, no amanhecer do domingo, e também sensibilizada pelo Ato de Solidariedade realizado na segunda-feira pela manhã. Além disso, as perguntas da repórter não foram mostradas na matéria veiculada no dia 16/08 (terça-feira). 

Vejamos então como foi a conversa (quase na íntegra), dentro do que a memória permitiu guardar desde algumas horas atrás.

1ª cena: Vou atravessando a Praça Saldanha Marinho em direção ao Calçadão, de mãos com minha filha Poliana (4 anos), por volta das 20h30min. Noite já fechada, com o frio peculiar do mês de agosto. Avisto o câmera e a repórter fazedo algumas tomadas externas e, por isso mesmo, vamos dobrando para a esquerda para desviar dali.

2ª cena: A repórter e o câmera apressam o passo em nossa direção. Microfone em punho. Ar de preocupação e espanto, ela dispara: 
"O sr. acha que é seguro caminhar com uma criança a essa hora num lugar como esse?"
Ao que, apesar de me sentir quase que confessando um crime, respondi: "Sim. Acho!"

3ª cena: Não satisfeita com o certo ar lacônico do abordado, a repórter insiste na conversa (eu vou acabar cedendo algo útil para a edição!).
"Mas você acha que é possível andar pelo Calçadão?"
Sem pestanejar diante do óbvio:
"Sim. É possível sim."
 Isso não bastava para a proposta ediTAtorial da empresa.
"Mas tu passa por aqui com frequência? Não sente um pouco de medo?"
"Não. Não sinto medo. Moro aqui perto. Este é meu caminho (minha cruzada) já passei aqui  diversas vezes. Em diferentes horários: noite, madrugada, manhã cedo, tarde..."
Ainda faltava algo. Então, em tom apocalíptico, a repórter lança a informação (já sabida):
"Mesmo após a morte de um estudante aqui mesmo no Calçadão, ainda assim tu achas que a cidade é segura?"

Então, desatei:
"Sim. Apesar de lamentar a tragédia que aconteceu com o rapaz na manhã de ontem e várias outras tragédias das quais somos testemunhas e vítimas todos os dias, é preciso reconhecer a cidade como uma espaço de convívio coletivo, de espaço comunitário. A própria imprensa e a mídia amplificam um clima de temor e de insegurança na sociedade que, muitas vezes é exagerado, desnecessário. Esquecem de fazer a cobrança adequada e a responsabilização do Poder Público quanto à segurança ou, quando fazem, esquecem que segurança é muito mais que policiamento na rua (desde ontem o Centro está mais policiado), mas é preciso a garantia de várias políticas públicas e direitos (...). Este 'terrorismo' da mídia afasta as pessoas da rua, dos espaços de encontro. Eu ainda acredito na rua como local de convivência e de partilha coletivas. Por isso, eu ainda insisto em caminhar!"
E foi por aí a conversa. Acredito que desapontei a "linha" da matéria, até pq, apenas foi incluída a parte em que falo que passo pelo local com certa frequência; mas isso num tom de "Vejam! As pessoas não tem escolha! 'Precisam' passar por ali!"

Apesar disso, foi um exemplar caso de entendimento sobre o perfil dos veículos de comunicação das grandes redes.

No dia seguinte, chegou até mim um belo texto sobre a situação da violência/segurança em Lima, no Peru. Pelo caso e pela abordagem, poderia ser em qualquer lugar. Recomento a leitura no ADITAL.

Por enquanto, sigo aqui, com aquela velha predileção em sentir  os gramados (cada vez mais raros), as ruas e as calçadas da cidade batucando na sola dos meus pés. Eu insisto em caminhar!

Afinal, a praça é do povo como o céu é do condor! Não é mesmo?

*As fotos são do  álbum de Fabiano Dallmayer, no Facebook. Registro da manifestação do dia 15/08/2011.



terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A Boa Vida !

"Perceba: a liberdade não garante vida boa! Mas a liberdade é condição necessária porque a vida não tem nenhuma chance de valer a pena se ela for regida pela coação, pela repressão; se ela for determinada pelo medo."

"Onde há medo, a vida não pode valer a pena. Quando você é 'ajudado' pelas instâncias repressivas da civilização, pra definir a vida que vai viver, evidentemente que essa não pode ser a vida boa. Por que a vida boa é aquela em que você, com você mesmo , pondera que vida vai viver."

"Cada vez que somos conduzidos a viver, por uma força repressiva, efetiva ou suposta, claro está, que a vida tem menos chance de ser legal!"


E afinal de contas, quem sabe qual é a vida q vale a pena ser vivida? http://migre.me/3N90a #eudaimonia (eu quero)

sábado, 15 de janeiro de 2011

Havia uma reta oposta entre nós. 
Uma diagonal dilacerante nos afastava. 
Olhares cruzavam o velho salão e tentavam encurtar distâncias. 
Idiomas diferentes mas a esperança de entenderem-se facilmente sobre essas coisas da língua.
 E da pele. 
Afinal, o mundo tem tantas e maiores dificuldades. 
Uma noite inteira ainda no separava do próximo amanhecer. 
Outros caminhos; outras estradas.
Alguns segredos.
Mas uma noite em comum. 
Uma noite incomum.
Ainda havia um salão entre nós, mas a essa altura já confessamos, em silêncio, que apenas isso nos separava.

(dos Contos em Noites Estrangeiras - sem data para publicação)