domingo, 22 de agosto de 2010

Humor com Humor se paga!

...é que só rindo dessa turma mesmo!

E olha que eu nem sou muito do "politicamente correto" quando o assunto é humor. Só que essa ficou parecendo aquela do "quem ri por último é pq não entendeu a piada".

No blog Os amigos do presidente LULA, encontramos a repercussão do engraçado atrasado cômico protesto realizado pelos humoristas contra a censura.

"Corria o ano de 1997, FHC era presidente, surfando no populismo dos déficits fiscais e cambiais do plano real, que quebrou o Brasil no ano seguinte. 
Com apoio da Globo, Veja, Estadão e Folha, planejou meticulosamente sua própria reeleição.
A emenda da reeleição foi a maior batalha e o maior escândalo, mas não foi a única para reeleger o demo-tucano. 
Era preciso encurtar a campanha eleitoral na TV, para reduzir o período de exposição a críticas da oposição. Era preciso aplicar uma mordaça aos poucos dissidentes da imprensa que ousassem satirizar a imagem do "príncipe dos sociólogos". Era preciso "melar" os debates na TV.
Para isso foi criada, sob medida para reeleger FHC, a Lei 9504, de 30 de setembro de 1997, um ano antes das eleições.
Durante estes 13 anos, a lei nunca incomodou os donos de jornais e TVs e seus humoristas demo-tucanos. Eles se encarregavam de não fazer charges, nem humorismo forte contra FHC, a ponto de prejudicar sua reeleição, nem de serem multados pelo TSE."
Parece que agora a Lei perdeu definitivamente a graça!
Leia na íntegra no blog dos "Amigos".

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Por uma escola formadora - Clóvis Barros Filho

O Jornal Extra Classe, produzido pelo SINPRO-RS, apresentou nesta edição de agosto, entrevista com o Professor Clóvis de Barros Filho. Reconhecido pelas instigantes reflexões propostas por onde passa; tive a oportunidade de encontrá-lo em 2009, no Congresso do SINEPE, o que cheguei a relatar por aqui.

Agora, nesta oportunidade, fala ao EXTRACLASSE sobre questões éticas que permeiam a sociedade e, em particular, a escola.

Confiram!

Entrevista
Por uma escola formadora
Clóvis de Barros Filho
Por Gilson Camargo
gilson.camargo@sinprors.org.br

Professor de Ética e de Filosofia da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), Clóvis de Barros Filho é conferencista profissional e gosta de ser comparado aos sofistas, “professores ambulantes que, com seu saber e habilidade retórica, propõem novas escolas”, como define o site da sua consultoria, aEspaço Ética. Entre 2007 e início deste ano, apresentou para mais de 150 mil pessoas, entre estudantes, empresários e políticos, A vida que vale a pena ser vivida, curso em dez módulos recentemente lançado como livro pela editora Vozes. Graduado em Direito pela USP e em Jornalismo pela Casper Líbero, é mestre em Ciências Políticas pela Sorbonne Nouvelle (Paris III) e doutor em Ciências da Comunicação pela USP. Clóvis foi palestrante do Congresso (A)gente na Educação Urgente, promovido pelo Colégio Sinodal, de São Leopoldo, de 20 a 22 de julho, no qual abordou o papel da escola na formação de cidadãos. “Preocupada com desempenho e objetividade, a escola se resume em labirinto rumo ao vestibular ao invés de transformar o aluno em um ser pensante, reflexivo, capaz de mudar o mundo”, afirma nessa entrevista ao Extra Classe. “Ao fechar os olhos para a subjetividade, a escola transforma alunos em peões a serviço daqueles que dominam as relações sociais”, provoca.
Extra Classe – Como o senhor simplificaria os conceitos de moral e ética para os pensadores comuns não filósofos?
Clóvis de Barros Filho – A distinção entre os dois conceitos é sutil e, como tudo na filosofia, passível de controvérsia. Mas, para o leigo, gosto de dizer que o pensamento moral é o pensamento sobre o próprio agir. Entende-se que temos, para além dos animais, guiados apenas pelo instinto, a prerrogativa de determinarmos os rumos da nossa vida, através do que os gregos chamavam de logos, que nada mais é que a nossa inteligência, nossa capacidade de pensar. Quando pensamos sobre nossas ações, estamos no campo da moral. A ética encontra-se, também, dentro do campo da moral, e representa aqueles critérios que usamos para decidir a vida que viveremos, em detrimento de todas as outras possíveis. Então, ética deve ser entendida como um conjunto de valores e crenças que julgamos mais adequados para guiar-nos em direção à vida boa, ou à melhor maneira de viver. Neste sentido, as palavras “amoral” e “antiético” não fazem sentido na humanidade, pois amoral é o animal, que não pensa para viver. E não é possível ser antiético, buscar a pior maneira de viver, pois somos, como diria Spinoza, instâncias de conservação das próprias potências, por definição, não agimos contra a nossa natureza. Portanto, não podemos ser antiéticos.
"Vivemos na sociedade do fetiche, de endeusamento do produto que adquire vida própria a ponto de reger as vidas e as opiniões dos indivíduos"
EC – Na sua opinião, as demandas da sociedade contemporânea por consumo, prazer e notoriedade evidenciam o quê? 
Clóvis – A demanda, ou a busca por prazer e notoriedade marcam inequivocamente o gênero humano. Desde sempre, ao menos na sociedade ocidental, o homem precisou destacar-se, precisou buscar o prazer. Em algumas escolas filosóficas, a busca do prazer é verdadeiro bem existencial, critério último de vida boa. A grande diferença da atualidade em relação à história é que todas as relações humanas, em qualquer sentido que sejam tomadas, são fortemente permeadas pelo consumo e por produtos. Com o prazer e notoriedade não poderia ser diferente. Todos os prazeres humanos estão, hoje, associados a produtos, a marcas. Desde comer até o prazer sexual, recheado de brinquedos e fetiches. Vivemos na sociedade do fetiche, que nada mais é do que a negação da mercadoria como mercadoria e o consumo por atributos, que vão para muito além daqueles que a mercadoria comporta em si mesma. É o endeusamento do produto, que toma vida própria e chega a ponto de reger as vidas e as opiniões dos indivíduos de nossa sociedade.
EC – Quais são as premissas de “vida boa” elencadas no livro A vida que vale a pena ser vivida, escrito em parceria com Arthur Meucci? No lançamento, o senhor frisou não se tratar de um livro de autoajuda. Por quê?
Clóvis – No livro, apresentamos dez reflexões sobre a vida boa. Sobre os critérios existenciais para se viver bem. Cada um pertencente a um filósofo ou escola filosófica. Percorremos um caminho que vai desde a Grécia antiga até o início do século 20. O livro é exatamente o oposto do que é um livro de autoajuda. Enquanto que este último tem como premissa o conhecimento inequívoco do todo problemático e das soluções infalíveis e estritamente adequadas aos problemas, a postura filosófica é da reflexão e da dúvida. É a postura da desconfiança. Não oferecemos dez maneiras de se dar bem. Oferecemos dez pensamentos sobre a vida, dez formas diferentes de pensarmos nossas condições existenciais. Nenhuma delas promete a felicidade eterna. Esperamos que os leitores possam extrair do livro um arsenal existencial que o fortaleça de maneira real para enfrentar os desafios do mundo, pois, como não cansamos de dizer, “o real é criativo para agredir”.

EC – EC – Há uma demanda por ética no mundo corporativo? Quais são os conflitos enfrentados pelos empresários?
Clóvis – A demanda por ética no mundo corporativo existe, mas, em muitos lugares, não passa de fachada. De programa de responsabilidade social, tão enganador quanto a ideia de qualidade de vida, sempre imposta, sempre padronizada e vinda de fora. O que percebo é que algumas empresas verdadeiramente buscam pensar suas ações e seus caminhos, mas outras querem, em um comitê de ética, um instrumento político de validação das condutas adotadas por critérios que são alheios aos estipulados em códigos e valores organizacionais. 
EC – O lobby é lícito?
Clóvis– No Brasil, o lobby é proibido. Nos EUA, é permitido. Mas a questão do lobby vai muito além das estratégias de convencimento e daquilo que se possa entender por este termo. No Brasil, as práticas seguem a criatividade pela qual somos famosos no futebol. Não é só uma questão de políticas públicas, mas embrenha-se no mundo privado das maneiras mais estarrecedoras possíveis. Recentemente fui apresentado como um homem que pensa ‘fora da caixa’. Lisonjeado pelo que entendi ser um elogio, complementei: quero ser aquele que faz os furos na caixa, para que quem esteja lá dentro possa também ir para fora. Com esta característica, minha palestra tem sido requisitada por empresas de muitas áreas diferentes.

EC – Como conciliar ética e o toma lá dá cá do universo político?
Clóvis– Deve-se entender a ética como a escolha dos critérios morais para viver a vida. O que acontece no mundo político é um choque entre duas diferentes concepções de ética. Aquela que prevê critérios como o bem comum e o interesse do povo e aquela que prevê a glória e o sucesso pessoais. Todos os escândalos políticos têm como pano de fundo este conflito que eu chamaria de conflito primordial do cargo público. Conceber mudanças no comportamento político só será possível quando a profissionalização do mundo dos políticos ocorrer no sentido de uma ética voltada à população.
EC  O senhor é assessor do Conselho de Ética da Presidência da República. Como surgiu esse encargo e a que tipo de aconselhamento o senhor é demandado? 
Clóvis– Viajo a Brasília com certa frequência para participar de debates e de fóruns promovidos pelos mais diversos órgãos da União. Sou sempre convidado, não possuo vínculação formal, mas a minha presença lá é constante. Meu trabalho ali não difere muito daquilo que faço na academia e no mercado. Trago análises éticas baseadas na filosofia aos problemas que me são levantados.
EC – Diante do recente debate acerca da obrigatoriedade ou não do diploma para o exercício da profissão de jornalista, como o senhor – professor da área da Comunicação – entende que isso possa afetar a qualidade da informação oferecida à sociedade?
Clóvis– Enquanto que o diploma confere certa legitimidade ao profissional, atrelar a ele a competência do empregado é temerário. Para muito além do diploma, há que se medir e considerar, por exemplo, a qualidade do ensino, tão desvalorizado no país, o tipo de oferta de diploma que se pratica, o conhecimento do candidato etc. É incontestável que o papel do jornalista na sociedade midiatizada em que vivemos tem um impacto social enorme. Mas pela experiência acadêmica que tenho, desconfio que nem o diploma garanta que jornalistas, pouco ou muito experientes, tenham noção desta responsabilidade que o impacto de sua profissão traz consigo. O exemplo está aí, num domingo à noite, em que se fez de tudo para conseguir imagens do goleiro Bruno e, com isso, prejudicou o andamento das investigações, menosprezando o impacto da veiculação em favor do interesse imediato da audiência e do lucro do anúncio (refere-se à reportagem do Fantástico, que obteve depoimento do goleiro Bruno Fernandes, suspeito de assassinato, com uma câmera escondida).
EC – O senhor afirma que a escola privilegia o conhecimento em detrimento da formação dos alunos do ponto de vista da cidadania, fecha os olhos para a subjetividade. Por quê?
Clóvis – Creio que o ambiente escolar, com raras exceções, toma educação por treinamento. A perspectiva é a de preparar a criança para um mundo que a engolirá, para um mundo que é como é, tão mais forte que cabe a nós nos adaptarmos a ele desde pequenos. A perspectiva é, ainda, a de uma vida que não vale nela mesma. A escola prepara para o vestibular, a faculdade, para o emprego, o estágio para a efetivação, a efetivação para a promoção, a promoção para glória e a aposentadoria, e aí a vida para de ter rumo e surge uma angústia, que é justamente a indecisão existencial, pela falta de objetivos a perseguir. Esta é a vida que a escola inicia. Porque não forma o cidadão. Não ensina, ou não proporciona a oportunidade de o aluno pensar a vida em ato. Pensar o presente, viver por viver, agir no instante, e não ‘em função de’. De um lado, faz isto por estar a serviço do status quo. Depende, como quase tudo no mundo, do capital e, a rigor, é ele que determina qual a função de tudo na sociedade.
EC – Como desatar esse nó?
Clóvis – Desatar esse nó é uma tarefa dificílima. O professor que propõe métodos e posições diferenciadas é, com frequência, repreendido e desestimulado. Preso pelo vínculo empregatício, recua, pois sabe que haverá outro mais dócil para substituí-lo. A solução, talvez, possa passar pelas entidades de classe e pelas associações escolares, propondo discussões sobre aquilo que possam buscar como a verdadeira formação de pessoas, e não de candidatos.
EC – Em que sentido a escola se omite? 
Clóvis – A escola, muitas vezes, esquece da formação do ser humano. Muito preocupada com desempenho e objetividade, transforma-se no labirinto que o aluno deve percorrer para chegar ao vestibular. Em vez disso, poderia ser a arena que o transformaria em um ser pensante, que reflita, que seja capaz de mudar o mundo efetivamente, se julgar necessário, e não apenas mais um peão a serviço daqueles que dominam as relações sociais.
EC – Os professores contribuem com essa realidade ou são levados por ela?
Clóvis – Os professores têm sua parcela de culpa, mas contam com atenuantes, sem dúvida. São de certa forma pegos no redemoinho das diretrizes educacionais defendidas pelas organizações escolares e, pela condição de empregados em que vivem, têm pouco poder para fazer a situação se modificar.
EC – Na sua opinião, como as escolas particulares lidam com o paradoxo existente entre missão e interesse econômico?
Clóvis – Lidam dando total prevalência ao interesse econômico. Não por uma questão de maldade ou perversão, mas frequentemente por uma questão de sobrevivência. As escolas têm consciência de que uma proposta muito diferente da atual tende a gerar estranhamento, e o temor de perder alunos acaba fazendo com que elas sigam o fluxo, buscando se destacar na eficiência de seus programas, mas os critérios continuam os mesmos, apenas exacerbados. Esta espiral acaba por dificultar também qualquer mudança que se pretenda fazer isoladamente, ou de forma pioneira.
" A corrupção na política resulta do choque entre
EC – Por que a escola é tão pouco atrativa para as crianças e jovens e, para piorar, proliferam os casos de bullying e violência contra o professor?
Clóvis – A autoridade do professor não existe mais. Pois o aluno tem cada vez mais a consciência de que o professor está a seu serviço, especialmente quando toma conhecimento das relações financeiras que envolvem o ambiente escolar. Ao saber claramente que suas condições econômicas são extremamente mais favoráveis às de seus professores e, tendo no dinheiro uma medida (fetichizada) do valor das pessoas, o aluno de escola particular, por exemplo, passa a desrespeitar o professor e pode, comumente, contar com o apoio da administração da escola que, medindo a situação em números, deixa dominar o medo de perder o aluno, mais valioso que o professor. Já no sistema público, o problema é mais difícil de explicar. Obullying contra o professor tem também relação direta com a perda de autoridade do professor, mas que não conta com a vantagem econômica, em termos gerais. O fenômeno envolve variáveis sociais que vão desde o descaso governamental em atender necessidades básicas até uma fraca percepção do valor da educação para possibilitar uma vida melhor.
EC – Em que ponto a filosofia, desmistificada, pode contribuir? 
Clóvis – A filosofia desmistificada ajuda-nos a entender melhor as relações sociais, e analisar os fenômenos menos pelas aparências e mais pelo seu conjunto e características subjacentes e escondidas do olhar menos preparado.

domingo, 1 de agosto de 2010

Lula, PT, fhc, psdb...

LULA E O PSDB,POR EMIR SADER.Há uma tese que corre em setores políticos distintos que, pelos equívocos que contém e pelas conseqüências desastrosas que gera, deve ser analisada com precisão. É a tese de que o PT e o PSDB seriam a mesma coisa, assim como os governos do FHC e do Lula.

A tese leva a uma espécie de “terceirismo” entre a direita e a esquerda, buscando definir uma eqüidistância em relação às candidaturas da Dilma e do Serra. Em 2006 essa posição levou a que alguns setores da esquerda propusessem o voto branco ou nulo diante da alternativa de Lula ou Alckmin, como se fosse igual para o Brasil qualquer um deles que fosse eleito.
Se os governos de FHC e Lula fossem iguais, a desigualdade teria diminuído e não aumentado durante o governo de FHC. Se fossem iguais, o extraordinário apoio popular que tem Lula teria sido dado também ao governo FHC que, ao contrário, terminou seu mandato com uma imensa rejeição da população brasileira.
Se fossem iguais, a reação do Brasil diante da mais grave crise econômica internacional desde 1929 teria sido a mesma de FHC em 1999: elevar a taxa de juros a 48%, pedir novo empréstimo ao FMI, assinar a corresponde Carta de Intenções (deles), cortar recursos das políticas sociais, aumentando a recessão e o desemprego, que levou o Brasil à uma profunda e prolongada recessão, de que só saímos no governo Lula. 
Enquanto que o Lula reagiu diante da crise incentivando a retomada do crescimento da economia, baixando as taxas de juros, mantendo o poder aquisitivo dos salários, intensificando as políticas sociais, e fazendo assim que superássemos rapidamente a crise.

Se fossem iguais, não teria sentido a luta contra a ALCA – Área de Livre Comércio das Américas -, que FHC propugnava e que o governo Lula inviabilizou, para fortalecer os processos de integração regional. Dizer que são governos iguais ou similares é dizer que tanto faz privilegiar alianças subordinadas com os EUA ou aliar-se prioritariamente com os países do Sul do mundo, com os Brics entre eles.
Se fossem iguais os governos FHC e Lula, o Estado mínimo a que tinha sido reduzido o Estado brasileiro seria o mesmo que o Estado indutor do crescimento e a garantia da extensão dos direitos sociais da maioria pobre da população. O desenvolvimento, suprimido do discurso de FHC, foi resgatado como objetivo estratégico pelo governo Lula, articulado intrinsecamente a políticas sociais e de distribuição de renda.
Se fossem iguais, a maioria dos trabalhadores continuaria a não ter carteira de trabalho assinado, predominando o emprego informal sobre o formal. O poder aquisitivo dos salário teria continuado a cair, ao invés de ser elevado acima da inflação.
É grave que haja setores na esquerda que não consigam distinguir essas diferenças, entre a direita e a esquerda. Perdem a capacidade de identificar onde está a direita – o inimigo fundamental do campo popular -, correndo o grave risco de fazer o jogo dela, em detrimento da força e da unidade da esquerda.


Emir Sader é sempre uma leitura necessária!

Boa semana! Com muita militância. 

segunda-feira, 26 de julho de 2010

É sacanagem com o Lasier Martins

Mas fazia muito tempo que eu não via...
Aliás, tive a oportunidade de assistir ao vivo a memorável cobertura da Festa da Uva em que Lasier levou um choque e caiu...
ISSO NÃO SE FAZ!
E apesar do comunicador não ser merecedor, confesso que é com um pingo de remorso que MORRO DE RIR cada vez q assisto as cenas:


Comentários no YouTube:
Chupa que é de Uva!
Uvas with lasers!
Uvas with lasiers!
.
.
.
.
(respira)
].
.
.
.
.
(risos comedidos)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A volta do chacal

Juremir Machado da Silva

Décio Freitas adorava citar uma frase, atribuída a Charles Darwin, segundo a qual há um chacal que dorme dentro de cada um de nós. Ainda bem que o bicho passa a vida dormindo nas entranhas da maioria das pessoas. Quando desperta, porém, faz estragos enormes.

O goleiro Bruno, do Flamengo, está sendo devorado pela fera. Tinha tudo: fama, dinheiro e futuro profissional. Faltava-lhe, pelo jeito, superego. Limites. Valores. Educação. Foi decretada a sua prisão preventiva. Tudo indica que ele reforçará, como lembrou um ouvinte da Rádio Guaíba, a equipe do Bangu. Bangu II. A hipótese de que tenha mandado matar a mãe do seu filho, emparedar os ossos e dar a carne aos cachorros, faz pensar num conto terrível de Edgar Allan Poe, “A queda da casa de Usher”, que, obviamente, Bruno não leu. A sua brutalidade é natural.

Ou é cultural? Social? Faz sentido pensar em queda quando a decadência dos costumes se mostra tão forte e o império vacila. O crime supostamente praticado  a mando de Bruno teria explicação na sua origem social? O miserável transformado em milionário precoce graças ao futebol, sem passar por um processo educativo, uma formação cultural, teria feito de Bruno um homem sem limites, capaz de matar para não pagar uma pensão? Em outras palavras, Bruno seria o produto de seu meio marginalizado e sem freios?


O que pensar, então, dos jovens estupradores de Florianópolis? Adolescentes de classe média alta, como todos sabem agora, graças à internet, praticaram outro crime hediondo: estupraram uma colega de 13 anos. O chacal despertou dentro deles. Qual a explicação para o crime desses garotos? Falta de freios, de limites, de valores, de educação? São eles produtos de um meio social marcado pela prepotência, pela arrogância e pela convicção de impunidade, no qual os pais não se atrevem mais a cercear ou punir os filhos?

O crime de Bruno é o resultado da boçalidade de um meio violento e exposto às drogas, o meio das favelas? O crime dos bad boys de Florianópolis é o resultado da boçalidade de um meio violento e exposto ao consumo de drogas, o meio dos ricos, sem medo de nada, fúteis e alheios à batalha diária para ganhar a vida? De um lado, o crime dos, geralmente, sem pais e parâmetros. Do outro lado, o crime dos filhinhos de papai sem limites. O chacal não escolhe classe social. Há alguma diferença nesses crimes?

Num caso, a morte. No outro, a humilhação suprema. Num caso, adultos. No outro, menores de idade. Num caso, a exposição absoluta em todas emissoras de televisão. No outro, silêncio absoluto nos telejornais nacionais da emissora com maior audiência e liberdade aos criminosos. Sintoma de que a liberdade de expressão e a justiça são sempre socialmente limitadas. Depende de quem faz o quê. Vale para todos.


A espetacularização da violência reproduz as posições na sociedade. Talvez por isso muita gente queira “regulamentar” a internet, onde todos se exprimem e até o criminoso a usa para se vangloriar do crime cometido. Se não se pode dominar o chacal, que se amordace o papagaio. O chacal gosta de extremos sociais.

Postado por Juremir Machado da Silva - 08/07/2010

quarta-feira, 21 de julho de 2010

João Ubaldo, FHC e a ABL



João Ubaldo sobre FHC: "sociólogo medíocre"
  
 Guardei, por 12 anos, em meio à minha papelada imunda de recortes de jornais e revistas velhas, numa caixa de papelão em frangalhos, um artigo de João Ubaldo Ribeiro datado de 25 de outubro de 1998, porque esperava justamente esse momento: a hora em que Fernando Henrique Cardoso, alijado da política e na iminência de cair no esquecimento público, se candidatasse a uma vaga na Academia Brasileira de Letras. O artigo, intitulado “Senhor Presidente”, foi escrito logo depois da vitória de FHC, no primeiro turno das eleições de 1998, graças ao Plano Real e à aprovação, no Congresso Nacional, da Emenda Constitucional da reeleição, conseguida à custa de um escandaloso esquema de compra de votos. O texto é pau puro e, surpreendentemente, foi escrito numa época em que a mídia nacional era, praticamente, uma assessoria de imprensa do consórcio PSDB/PFL. Não por outra razão, foi inicialmente censurado em “O Estado de S.Paulo”, para onde o cronista escrevia, embora o jornal tenha sido obrigado a publicá-lo, uma semana depois, para evitar se envolver em um escândalo de censura justo com um dos mais respeitados escritores do país. Num tempo de internet incipiente, a repercussão do artigo foi mínima, ficando restrita às redações e ao meio intelectual, de resto, também acovardado pela força do pensamento único imposto à sociedade pela imprensa e pelo governo de então.
Esse retalho jornalístico ficou comigo tanto tempo porque, no fundo, eu tinha certeza que a vaidade intelectual de FHC iria levá-lo, em algum momento, a pleitear uma vaga na ABL, como agora se noticia em notas discretas de colunas de jornal, certo de que se trata de uma confraria historicamente vulnerável a influências políticas, quando não à bajulação pura e simples, como qualquer um pode constatar, embora abrigue grandes escritores, como o próprio João Ubaldo Ribeiro. Contudo, lá também estão escribas do calibre de José Sarney e do cirurgião plástico Ivo Pitanguy. No passado, também circulavam entre os imortais o general Aurélio de Lira Tavares (codinome “Adelita), eleito em 1970, com o apoio do ditador Emílio Médici, e Roberto Marinho, das Organizações Globo. A presença de FHC, que pelo menos escreveu uns livros de sociologia não seria, portanto, um escândalo em si. O problema é o artigo de João Ubaldo.
No texto, o escritor baiano, entre outras considerações, refere-se assim a Fernando Henrique Cardoso: “(…) o senhor é um sociólogo medíocre, cujo livro O Modelo Político Brasileiro me pareceu um amontoado de obviedades que não fizeram, nem fazem, falta ao nosso pensamento sociológico”. Mais adiante, relembra um dos piores momentos da vida de FHC: “(…) o senhor, que já passou pelo ridículo de sentar-se na cadeira do prefeito de São Paulo, na convicção de que já estava eleito, hoje pensa que é um político competente e, possivelmente, tem Maquiavel na cabeceira da cama. O senhor não é uma coisa nem outra, o buraco é bem mais embaixo”.
E por aí vai, até se lembrar, a certa altura do texto, que FHC, em algum momento da vida, poderia se interessar pela vida imortal da ABL. João Ubaldo, então, cospe uma fogueira de brasas para cima de Fernando Henrique: “(…) E, falando na Academia, me ocorre agora que o senhor venha a querer coroar sua carreira de glórias entrando para ela. Sou um pouco mais mocinho do que o senhor e não tenho nenhum poder, a não ser afetivo, sobre meus queridos confrades. Mas, se na ocasião eu tiver algum outro poder, o senhor só entra lá na minha vaga, com direito a meu lugar no mausoléu dos imortais”.
Eu posso estar errado, já se passou mais de uma década, a ira de João Ubaldo pode ter se perdido na poeira do tempo, mas a julgar pelo teor do imortal artigo do escritor e jornalista baiano, FHC vai ter que pensar duas vezes antes de se candidatar a uma vaga na ABL. Ou considerar o fato de que só vai entrar lá por cima do cadáver de João Ubaldo Ribeiro.
A conferir.
Abaixo (e aqui, retirado do ótimo site Alma Carioca), o artigo completo, para quem quiser se deleitar:
Senhor Presidente – João Ubaldo Ribeiro
25 de outubro de 1998
Senhor Presidente,
Antes de mais nada, quero tornar a parabenizá-lo pela sua vitória estrondosa nas urnas. Eu não gostei do resultado, como, aliás, não gosto do senhor, embora afirme isto com respeito. Explicito este meu respeito em dois motivos, por ordem de importância. O primeiro deles é que, como qualquer semelhante nosso, inclusive os milhões de miseráveis que o senhor volta a presidir, o senhor merece intrinsecamente o meu respeito. O segundo motivo é que o senhor incorpora uma instituição basilar de nosso sistema político, que é a Presidência da República, e eu devo respeito a essa instituição e jamais a insultaria, fosse o senhor ou qualquer outro seu ocupante legítimo. Talvez o senhor nem leia o que agora escrevo e, certamente, estará se lixando para um besta de um assim chamado intelectual, mero autor de uns pares de livros e de uns milhares de crônicas que jamais lhe causarão mossa. Mas eu quero dar meu recadinho.
Respeito também o senhor porque sei que meu respeito, ainda que talvez seja relutante privadamente, me é retribuído e não o faria abdicar de alguns compromissos com que, justiça seja feita, o senhor há mantido em sua vida pública – o mais importante dos quais é com a liberdade de expressão e opinião. O senhor, contudo, em quem antes votei, me traiu, assim como traiu muitos outros como eu. Ainda que obscuramente, sou do mesmo ramo profissional que o senhor, pois ensinei ciência política em universidades da Bahia e sei que o senhor é um sociólogo medíocre, cujo livro O Modelo Político Brasileiro me pareceu um amontoado de obviedades que não fizeram, nem fazem, falta ao nosso pensamento sociológico. Mas, como dizia antigo personagem de Jô Soares, eu acreditei.
O senhor entrou para a História não só como nosso presidente, como o primeiro a ser reeleito. Parabéns, outra vez, mas o senhor nos traiu. O senhor era admirado por gente como eu, em função de uma postura ética e política que o levou ao exílio e ao sofrimento em nome de causas em que acreditávamos, ou pelo menos nós pensávamos que o senhor acreditava, da mesma forma que hoje acha mais conveniente professar crença em Deus do que negá-la, como antes. Em determinados momentos de seu governo, o senhor chegou a fazer críticas, às vezes acirradas, a seu próprio governo, como se não fosse o senhor seu mandatário principal. O senhor, que já passou pelo ridículo de sentar-se na cadeira do prefeito de São Paulo, na convicção de que já estava eleito, hoje pensa que é um político competente e, possivelmente, tem Maquiavel na cabeceira da cama. O senhor não é uma coisa nem outra, o buraco é bem mais embaixo. Político competente é Antônio Carlos Magalhães, que manda no Brasil e, como já disse aqui, se ele fosse candidato, votaria nele e lhe continuaria a fazer oposição, mas pelo menos ele seria um presidente bem mais macho que o senhor.
Não gosto do senhor, mas não tenho ódio, é apenas uma divergência histórico-glandular. O senhor assumiu o governo em cima de um plano financeiro que o senhor sabe que não é seu, até porque lhe falta competência até para entendê-lo em sua inteireza e hoje, levado em grande parte por esse plano, nos governa novamente. Como já disse na semana passada, não lhe quero mal, desejo até grande sucesso para o senhor em sua próxima gestão, não, claro, por sua causa, mas por causa do povo brasileiro, pelo qual tenho tanto amor que agora mesmo, enquanto escrevo, estou chorando.
Eu ouso lembrar ao senhor, que tanto brilha, ao falar francês ou espanhol (inglês eu falo melhor, pode crer) em suas idas e vindas pelo mundo, à nossa custa, que o senhor é o presidente de um povo miserável, com umas das mais iníquas distribuições de renda do planeta. Ouso lembrar que um dos feitos mais memoráveis de seu governo, que ora se passa para que outro se inicie, foi o socorro, igualmente a nossa custa, a bancos ladrões, cujos responsáveis permanecem e permanecerão impunes. Ouso dizer que o senhor não fez nada que o engrandeça junto aos corações de muitos compatriotas, como eu. Ouso recordar que o senhor, numa demonstração inacreditável de insensibilidade, aconselhou a todos os brasileiros que fizessem check-ups médicos regulares. Ouso rememorar o senhor chamando os aposentados brasileiros de vagabundos. Claro, o senhor foi consagrado nas urnas pelo povo e não serei eu que terei a arrogância de dizer que estou certo e o povo está errado. Como já pedi na semana passada, Deus o assista, presidente. Paradoxal como pareça, eu torço pelo senhor, porque torço pelo povo de famintos, esfarrapados, humilhados, injustiçados e desgraçados, com o qual o senhor, em seu palácio, não convive, mas eu, que inclusive sou nordestino, conheço muito bem. E ouso recear que, depois de novamente empossado, o senhor minta outra vez e traga tantas ou mais desditas à classe média do que seu antecessor que hoje vive em Miami.
Já trocamos duas ou três palavras, quando nos vimos em solenidades da Academia Brasileira de Letras. Se o senhor, ao por acaso estar lá outra vez, dignar-se a me estender a mão, eu a apertarei deferentemente, pois não desacato o presidente de meu país. Mas não é necessário que o senhor passe por esse constrangimento, pois, do mesmo jeito que o senhor pode fingir que não me vê, a mesma coisa posso eu fazer. E, falando na Academia, me ocorre agora que o senhor venha a querer coroar sua carreira de glórias entrando para ela. Sou um pouco mais mocinho do que o senhor e não tenho nenhum poder, a não ser afetivo, sobre meus queridos confrades. Mas, se na ocasião eu tiver algum outro poder, o senhor só entra lá na minha vaga, com direito a meu lugar no mausoléu dos imortais.