domingo, 26 de setembro de 2010

Corrida de dez dias



24.09.2010
Por Luis Fernando Veríssimo
De hoje à data da eleição teremos dez dias de manchetes nos jornais e duas edições da Veja. Não sei até quando podem ser publicadas as pesquisas sobre intenção de voto, mas até a última publicação - aquela que, segundo os céticos, é a mais confiável, pois é a que garante a credibilidade e o futuro dos pesquisadores - veremos uma corrida emocionante: o noticiário perseguindo os índices da Dilma para tentar derrubá-los antes da chegada, no dia 3. O prêmio, se conseguirem, será um segundo turno. Se não conseguirem a única dúvida que restará será: se diz a presidente ou a presidenta?

Até agora as notícias de corrupção na Casa Civil não afetaram os índices da Dilma. Estou escrevendo na terça, talvez as últimas pesquisas mostrem um efeito retardado. Mas ainda faltam dez dias de manchetes e duas edições da Veja, quem sabe o que virá por aí? O governo Lula tem um bom retrospecto na sua competição com o noticiário. A popularidade do Lula não só resistiu a tudo, inclusive às mancadas e aos impropérios do próprio Lula, como cresceu com os oito anos de denúncias e noticiário negativo. Desde UDN x Getúlio nenhum presidente brasileiro foi tão atacado e denunciado quanto Lula. Desde sempre, nenhum presidente brasileiro acabou seu mandato tão bem cotado.
Acrescente-se ao paradoxo o fato de que o eleitorado brasileiro é tradicionalmente, às vezes simplisticamente, moralista. Elegeu Jânio para varrer a sujeira do governo Juscelino, elegeu Collor para acabar com os marajás, aplaudiu a queda do Collor por corrupção presumida e houve até quem pedisse o impedimento do Itamar por proximidade temerária com calcinha transparente. Mas o moralismo tornou-se politicamente irrelevante com Lula e, por tabela, para os índices da Dilma. É improvável que volte a ser decisivo em dez dias. Mas nunca se sabe. O que talvez precise ser revisado, depois dos oito anos do Lula e depois destas eleições, quando a poeira baixar, seja o conceito da imprensa como formadora de opiniões.
Mas a corrida dos dez dias começa hoje e seu resultado ninguém pode prever com certeza. Virá alguma bomba de fragmentação de última hora ou tudo que poderia explodir já explodiu? O que prevalecerá no final, os índices inalterados da Dilma ou o noticiário? Faça a sua aposta.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Derrotar a direita




E foi neste mesmo discurso que Lula disse que o DEM não deveria mais existir ... aliás o DEM , tem a ARENA no seu dna.... é a "mesma direita", raivosa e golpista, faz tempo!

domingo, 12 de setembro de 2010

11 de setembro

Robert Fisk e o 11 de setembro: Duas guerras, milhares de mortos…

9 anos, 2 guerras, centenas de milhares de mortos…

E não aprendemos coisa alguma?

10/9/2010, Robert Fisk, The Independent, UK // Tradução de Caia Fittipaldi
O 11/9 nos enlouqueceu todos? Nossa homenagem aos inocentes que morreram há nove anos continua a ser um holocausto de fogo e sangue.
O 11/9 nos enlouqueceu todos? O quanto faz perfeito sentido, de um modo alucinado, enlouquecido, que a apoteose da tempestade de fogo há nove anos seja, hoje, um pregador pirado que ameaça nos ferir com outra tempestade de fogo à moda da queima de livros dos nazistas! E ameaça fazer piras de livros do Corão. Ou a campanha contra uma mesquita a ser construída a dois quarteirões do “marco zero” – como se o 11/9 tivesse sido ataque a cristãos que cultuam Jesus, em vez de ataque contra o ocidente ateu.
Mas, afinal, por que nos surpreender? Basta olhar para outros desses doidos que brotam depois de cada crime contra a humanidade: o semidoido Ahmadinejad; Gaddafi, o pegajoso pós-nuclear; Blair com aquele olho direito de maníaco e George W Bush, com suas prisões negras e torturas e a completamente lunática “guerra ao terror”. E o desprezível que viveu – e talvez ainda viva – numa caverna afegã e as centenas de al-Qaedas que criou, e o mullah Omar caolho – para não falar dos agentes lunáticos das agências de inteligência e da CIA principalmente – que não nos salvaram do 11/9 porque foram muito lentos ou idiotas demais para identificar 19 homens que atacariam os EUA. E lembrem: ainda que o Rev. Terry Jones continue persuadido a desistir de queimar livros do Corão, já há vários outros doidos como ele, de plantão, prontos a assumir seu lugar.
De fato, nesse sombrio 9º aniversário – e deus nos ajude, quando chegar o 10º, ano que vem – o 11/9 parece ter produzido só monstros, nenhuma paz, nenhuma justiça, nenhuma melhor democracia. Destruíram o Iraque – os doidos ocidentais e os doidos da cepa local – e massacraram 100 mil almas, ou 500 mil, ou um milhão; e quem liga? E mataram dezenas de milhares no Afeganistão; e quem liga? E enquanto a praga se espalha pelo Oriente Médio e pelo globo, eles – os pilotos da força aérea e os insurgentes, os fuzileiros e os homens-bomba, as al-Qaedas do Maghreb e do Khalij e do Califato do Iraque e as forças especiais e os garotos do apoio aéreo e os degoladores – degolaram mulheres e crianças e velhos e doentes e jovens e saudáveis, do Indus ao Mediterrâneo, de Bali ao metrô de Londres; que homenagem aos 2.966 inocentes que morreram há nove anos! Em nome daqueles mortos, oferecemos o holocausto que produzimos, de fogo e sangue; e, agora, a sandice do pregador doido de Gainesville.
Essas foram as perdas, é claro. Mas… quem ficou com o lucro? Bem, os mercadores de armas, é claro; e as Boeing e Lockheed Martin e os que vendem mísseis e fabricam aviões-robôs e peças de reposição para os F-16 e os mercenários sanguinários que confiscam terras de muçulmanos em nosso nome. Sobretudo agora, quando já produzimos mais de 100 mil novos inimigos para cada um dos 19 assassinos do 11/9. Os torturadores vivem boa vida, gozando seu sadismo nas prisões negras dos EUA – e seria conveniente que, nesse 9º aniversário, o mundo fosse afinal informado de que há um centro de tortura dos EUA, em pleno funcionamento, na Polônia –, homens (e mulheres, temo) que já aperfeiçoaram as técnicas de sufocamento e afogamento mediante as quais o ocidente guerreia as guerras contemporâneas. E, isso, sem esquecer todos os religiosos fanáticos do mundo, sejam do tipo Bin Laden, ou os barbudos do Talibã, sejam os homens-bomba, sejam pregadores malucos grisalhos de gravata como aquele pregador, o nosso maluco, o de Gainesville.
Mas Deus? Onde entra Deus em tudo isso? Um arquivo de citações sugere que todos os monstros brotados do ou criados no 11/9 são seguidores desse quixotesco redentor. Bin Laden reza a Deus – “que faça dos EUA uma sombra do que é”, como me disse, pessoalmente, em 1997 –, e Bush reza a Deus, e Blair rezava – e ainda reza – a Deus, e todos os matadores muçulmanos e milhões de soldados ocidentais matadores e também o “Doutor” (honorário) “Pastor Terry Jones” e seus 30 (talvez 50, porque, nessa “guerra ao terror” as estatísticas nunca batem) seguidores também rezam a Deus. E o pobre velho Deus, é claro, tem de ouvir todas as rezas cujo coro aumenta durante as guerras. Relembremos as palavras atribuídas a Deus, por poeta de outra geração: “Deus isso, Deus aquilo, e Deus sabe-se lá o quê! Santo Deus! Assim, meu trabalho fica pela metade!” [1] E foi só a Primeira Guerra Mundial!
Há apenas cinco anos – no 5º aniversário dos ataques às torres gêmeas/Pentágono/Pensilvânia – uma aluna perguntou-me, numa conferência numa igreja em Belfast, se o Oriente Médio se beneficiaria por lá haver mais religião. Não!, rugi, na resposta. É preciso menos religião! Deus é assunto de contemplação, não de guerras. Mas – e aqui somos jogados contra os recifes e rochas escondidas que nossos líderes querem que não vejamos, que esqueçamos, que as ponhamos de lado – há, sim, esse inferno de sangue que envolve todo o Oriente Médio. São povos muçulmanos que mantiveram sua fé, enquanto os ocidentais, que os oprimem militarmente, economicamente, culturalmente, socialmente – já perderam qualquer fé. Como é possível?, perguntam-se os muçulmanos. De fato, é soberbamente irônico que o Rev. Jones seja homem de fé, enquanto já não há ninguém à volta dele que tenha qualquer fé. Por isso os nossos livros e documentários jamais falam de muçulmanos versus cristãos, mas de muçulmanos versus “O Ocidente”.
E, claro, há o tabu, o tema de que não se pode falar – o relacionamento entre Israel e os EUA, e o apoio incondicional dos EUA ao roubo de terras, porque Israel rouba terras dos árabes muçulmanos todos os dias –, também está no âmago da crise terrível que assola nossas vidas.
Na edição de The Independent da 6ª-feira, viam-se fotos de uma demonstração no Afeganistão em que os manifestantes gritavam “morte aos EUA”. Mas ao fundo, os mesmos manifestantes carregavam um estandarte negro escrito em dari, com tinta branca. Lá se lia – e nenhum jornal ocidental traduziu – “O regime sionista sanguinário e os líderes ocidentais indiferentes ao sofrimento dos palestinos mais uma vez celebram o ano novo com mais sangue palestino derramado”.
É mensagem de violência terrível – mas prova, mais uma vez, que a guerra em que estamos afundados é disputa também da questão Israel-palestinos. Talvez o “Ocidente” prefira acreditar que os muçulmanos “nos odeiam pelo que somos” ou que odeiem “nossa democracia” (é o que sempre mentiram Bush, Blair e uma horda de políticos mentirosos) – mas o conflito entre Israel e palestinos está no centro da “guerra ao terror”. Porque está. E, porque está, o igualmente vicioso Benjamin Netanyahu, ao reagir às atrocidades do 11/9, disse que ‘o evento’ seria bom para Israel. Israel poderia passar a dizer que, contra os palestinos, lá também se lutava “a guerra ao terror”, e que Arafat – e foi o que disse o hoje semimorto Ariel Sharon – seria “nosso Bin Laden”. Assim, os israelenses puderam atrever-se a dizer que Sderot, sob chuva de mísseis de lata do Hamás, seria “o marco zero israelense”.
Nada disso é verdade. A batalha de Israel contra os palestinos é caricatura fantasmagórica da “guerra do terror” do “Ocidente”, mediante a qual o Ocidente dá apoio ao último projeto colonial do planeta – e aceita os milhões de mortos –, porque as torres gêmeas, o Pentágono e o avião da United voo 93 foram atacados por 19 assassinos árabes há nove anos.
Há uma horrenda ironia no fato de que um dos resultados diretos do 11/9 tenha sido a legião de policiais e agentes e ‘especialistas’ que voaram imediatamente para Israel para aprimorar sua “expertise antiterroristas” com a ajuda de oficiais israelenses que muito provavelmente – nos termos divulgados pela ONU – são criminosos de guerra. Não surpreende que os heróis que fuzilaram o infeliz Jean Charles de Menezes, brasileiro, no metrô de Londres em 2005 estivessem recebendo assessoramento “antiterroristas” dos israelenses.
Ah, sim, já sei o que vão dizer. Que não podemos comparar a ação de terroristas do mal e a coragem de jovens policiais ingleses, homens e mulheres, que defendem vidas inglesas – e sacrificam as próprias vidas – nos fronts da “guerra ao terror”. Não há comparação. Não são “iguais”. “Eles” matam inocentes, porque “eles” são o mal. “Nós” matamos inocentes… por engano. Mas nós sabemos que vamos matar inocentes – aceitamos a evidência de que mataremos inocentes, que nossos atos criarão valas comuns nas quais se enterrarão famílias inteiras dos mais pobres, dos mais fracos, dos mais desamparados.
Por isso inventamos o conceito obsceno de “dano colateral”. Porque se “colateral” significar que aqueles mortos são inocentes, então “colateral” também significaria que os que os assassinam também seriam inocentes. Não queríamos assassiná-los – por mais que sempre soubéssemos que os assassinaríamos. “Colateral” é nossa licença para matar. Essa única palavra faz toda a diferença entre “nós” e “eles”, entre o nosso direito divino de matar e o direito divino de Bin Laden matar. As vítimas, ocultadas como cadáveres “colaterais”, já nem se contam, porque são provas do nosso crime. Talvez lhes tenha doído menos. Talvez morrer por tiro de avião-robô seja morte mais doce, partida mais suave desse vale de lágrimas. Ou, quem sabe, ser cortado ao meio e eviscerado por um míssil AGM-114C Boeing-Lockheed ar-terra doa menos do que voar pelos ares aos pedaços por efeito de uma bomba no acostamento ou de algum cruel homem-bomba que se suicide na rua.
Por isso é que sabemos quantos morreram no 11/9 – 2.966, e o número talvez seja maior – mas nem contamos os mortos que nós matamos. Porque eles – “nossas” vítimas – nem são identificáveis, nem são inocentes, nem são humanos, não têm causas, nem crenças, nem sentimentos; e porque já matamos muito, muito, muito mais gente que Bin Laden e os Talibã e a al-Qaeda.
Aniversários são eventos para jornais e televisões. E parecem ter o mau hábito de se unirem sempre em cenários trágicos. Assim os ingleses comemoram a “Batalha da Bretanha” – episódio cavalheiresco da história dos britânicos – e a “Blitz”, bisavó dos assassinatos em massa, mas símbolo de uma espécie ingênua de coragem –, como lembramos o início de uma guerra que rachou pelo meio a moralidade pública, converteu políticos britânicos em criminosos de guerra, nossos soldados em assassinos e nossos inimigos em heróis da causa contra o Ocidente.
E, ao mesmo tempo em que, nesse tormentoso aniversário, o Rev. Jones prega que se queime um livro intitulado “Corão”, Tony Blair está em campo para vender um livro intitulado “Uma jornada”. Jones disse que o Corão seria “o mal”. Muitos britânicos perguntam-se se o livro de Blair não deveria chamar-se “O Crime”. Não há dúvida de que o 11/9 já virou delírio, se o Rev. Jones consegue atrair a atenção dos Obamas dos Clintons, do Santo Padre e até da ainda mais santa ONU. Aqueles que os deuses querem destruir, os deuses primeiro enlouquecem…
[1] No orig. “God this, God that, and God the other thing. ‘Good God,’ said God, ‘I’ve got my work cut out’. São versos conhecidos na Inglaterra como “a quadrinha da [primeira] Grande Guerra”, de autor desconhecidos, mas atribuídos a J.C. Squire, depois Sir John Squire.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

PRBS: o partido das elites guascas


Essa é muito boa!


RBS, COMO SE FOSSE UM PARTIDO
por Ayrton Centeno
Suponha que Ali Kamel fosse presidente da República. Fantasie um pouco mais e descubra Miriam Leitão, também eleita, subindo a rampa do Palácio do Planalto. Sob o impulso do mesmo delírio coloque Fátima Bernardes candidata ao Senado Federal. Fátima vai disputar a cadeira que o senador Faustão não deseja mais ocupar. Difícil conceber? É possível. Mas não no Rio Grande do

Sul. Ninguém ficaria surpreso. É que este cotidiano sequestrado ao realismo fantástico “naturalizou-se” no território gaúcho. Um exemplo: desde 1994, egressos dos quadros do grupo RBS – a Globo local – disputam todas as eleições para governador naquele que, durante muito tempo, jactou-se de ser o estado mais politizado do Brasil. E, em duas ocasiões, eles venceram. Em
2010, a RBS novamente está no páreo não apenas para o Palácio Piratini, mas também para o Senado, a Assembleia Legislativa e a Câmara dos Deputados.
Com 21 emissoras de TV (18 afiliadas à Globo), 25 rádios, oito jornais diários e quatro portais na internet, a RBS não comanda apenas a mídia, mas boa parte dos corações e mentes no Sul. Em 1994, quando seu ex-diretor de telejornalismo Antonio Britto elegeu-se governador, a força do conglomerado tornou-se ainda mais notória. Nas prévias do PMDB, os dois candidatos em confronto tinham raízes na RBS: Britto e o deputado federal e apresentador de rádio e TV Mendes Ribeiro. Em 1998 e 2002, Britto tentou retornar ao governo. Em 2006, mais uma procedente da RBS chegaria ao Piratini: Yeda Crusius. Eleita pelo PSDB, Yeda popularizou sua imagem com aparições diárias no telejornal noturno da então TV Gaúcha, onde ocupava um espaço de análise econômica. Dali desabrochou para a política a bordo de uma esquisitice.
No governo Itamar Franco, o presidente pediu ao amigo Pedro Simon a indicação de uma mulher para fazer florir seu ministério que considerava demasiadamente carrancudo e atulhado de homens. Simon lembrou-se da professora de economia que aparecia bem na TV. E, como as coisas aconteciam sob Itamar, da noite para o dia, Yeda virou ministra do Planejamento. Durou 70 dias, uma passagem breve e bisonha — foi informada da existência do Plano Real na coletiva de lançamento – mas acarpetou seu trajeto para a Câmara Federal. Em 2010, tenta reeleger-se governadora.
Para o Senado, a jornalista Ana Amélia Lemos é a representante do poder do grupo no pleito de outubro. Após décadas chefiando a sucursal de Brasília, com presença diária no rádio, na televisão e no jornal Zero Hora, ela ingressou na corrida como candidata do PP. Mas, na cabeça do eleitor, não vai estar o partido submerso no escândalo do Detran/RS, que fez evaporar R$ 44 milhões dos cofres estaduais, e sim a figura que diariamente entrava na sua sala para tratardos temas mais candentes do Brasil. E conta com boas chances de sucesso, embora enfrentando dois pesos-pesados: o atual senador Paulo Paim (PT) e o ex-governador Germano Rigotto (PMDB).
Se isto ocorrer, Ana Amélia ocupará a cadeira do senador Sérgio Zambiasi (PTB), apresentador de programas populares na rádio Farroupilha, também da empresa. Aportando no Senado em 2002, após sucessivas eleições como um dos deputados estaduais mais votados do país e presidente da Assembleia Legislativa, Zambiasi absteve-se de concorrer em 2010. Projeta um cargo no

executivo em 2012 ou 2014. Além das eleições majoritárias, os representantes do time da RBS sempre se engajaram na caça às vagas nas proporcionais. Neste ano não será diferente. O ex-vice-presidente institucional do grupo, Afonso Motta, concorre a deputado federal pelo PDT. Um dos parlamentares mais votados do estado em 2006, Paulo Borges elegeu-se com a ajuda do cognome “O Homem do Tempo” – era o encarregado da previsão na RBS TV – e disputa a reeleição pelo DEM.
Como regra quase sem exceções, os candidatos assim forjados não possuem vida partidária pregressa, escalando cargos eletivos por obra da exposição midiática e de sua natureza de personalidades “não-políticas”. Com perfil conservador, alinham-se no espectro que vai do centro à direita. Nesta modalidade de berlusconização delegada, como emergem na condição de

criaturas da mídia, dificilmente contrastam os muitos interesses da mesma mídia que os criou.
Não falta quem diga que é um partido, o PRBS. Não falta quem diga que é o único. Um exagero, deve-se convir. Porém, com os jornais mais influentes, a TV aberta e as rádios AM e FM líderes de audiência, supõe-se até que 90% dos assuntos que freqüentam as conversas dos gaúchos tenham origem na pauta da RBS. Verdade ou não, vale como elemento de reflexão sobre o efeito aberrante da concentração e da propriedade cruzada dos meios de comunicação no jogo eleitoral e na livre manifestação dos eleitores. Vinte e cinco anos após o suspiro final de sua última ditadura, é uma pedra no caminho de um

país que ainda constrói penosamente sua democracia.
(*) Jornalista, artigo publicado originalmente em Brasília Confidencial

domingo, 22 de agosto de 2010

Humor com Humor se paga!

...é que só rindo dessa turma mesmo!

E olha que eu nem sou muito do "politicamente correto" quando o assunto é humor. Só que essa ficou parecendo aquela do "quem ri por último é pq não entendeu a piada".

No blog Os amigos do presidente LULA, encontramos a repercussão do engraçado atrasado cômico protesto realizado pelos humoristas contra a censura.

"Corria o ano de 1997, FHC era presidente, surfando no populismo dos déficits fiscais e cambiais do plano real, que quebrou o Brasil no ano seguinte. 
Com apoio da Globo, Veja, Estadão e Folha, planejou meticulosamente sua própria reeleição.
A emenda da reeleição foi a maior batalha e o maior escândalo, mas não foi a única para reeleger o demo-tucano. 
Era preciso encurtar a campanha eleitoral na TV, para reduzir o período de exposição a críticas da oposição. Era preciso aplicar uma mordaça aos poucos dissidentes da imprensa que ousassem satirizar a imagem do "príncipe dos sociólogos". Era preciso "melar" os debates na TV.
Para isso foi criada, sob medida para reeleger FHC, a Lei 9504, de 30 de setembro de 1997, um ano antes das eleições.
Durante estes 13 anos, a lei nunca incomodou os donos de jornais e TVs e seus humoristas demo-tucanos. Eles se encarregavam de não fazer charges, nem humorismo forte contra FHC, a ponto de prejudicar sua reeleição, nem de serem multados pelo TSE."
Parece que agora a Lei perdeu definitivamente a graça!
Leia na íntegra no blog dos "Amigos".

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Por uma escola formadora - Clóvis Barros Filho

O Jornal Extra Classe, produzido pelo SINPRO-RS, apresentou nesta edição de agosto, entrevista com o Professor Clóvis de Barros Filho. Reconhecido pelas instigantes reflexões propostas por onde passa; tive a oportunidade de encontrá-lo em 2009, no Congresso do SINEPE, o que cheguei a relatar por aqui.

Agora, nesta oportunidade, fala ao EXTRACLASSE sobre questões éticas que permeiam a sociedade e, em particular, a escola.

Confiram!

Entrevista
Por uma escola formadora
Clóvis de Barros Filho
Por Gilson Camargo
gilson.camargo@sinprors.org.br

Professor de Ética e de Filosofia da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), Clóvis de Barros Filho é conferencista profissional e gosta de ser comparado aos sofistas, “professores ambulantes que, com seu saber e habilidade retórica, propõem novas escolas”, como define o site da sua consultoria, aEspaço Ética. Entre 2007 e início deste ano, apresentou para mais de 150 mil pessoas, entre estudantes, empresários e políticos, A vida que vale a pena ser vivida, curso em dez módulos recentemente lançado como livro pela editora Vozes. Graduado em Direito pela USP e em Jornalismo pela Casper Líbero, é mestre em Ciências Políticas pela Sorbonne Nouvelle (Paris III) e doutor em Ciências da Comunicação pela USP. Clóvis foi palestrante do Congresso (A)gente na Educação Urgente, promovido pelo Colégio Sinodal, de São Leopoldo, de 20 a 22 de julho, no qual abordou o papel da escola na formação de cidadãos. “Preocupada com desempenho e objetividade, a escola se resume em labirinto rumo ao vestibular ao invés de transformar o aluno em um ser pensante, reflexivo, capaz de mudar o mundo”, afirma nessa entrevista ao Extra Classe. “Ao fechar os olhos para a subjetividade, a escola transforma alunos em peões a serviço daqueles que dominam as relações sociais”, provoca.
Extra Classe – Como o senhor simplificaria os conceitos de moral e ética para os pensadores comuns não filósofos?
Clóvis de Barros Filho – A distinção entre os dois conceitos é sutil e, como tudo na filosofia, passível de controvérsia. Mas, para o leigo, gosto de dizer que o pensamento moral é o pensamento sobre o próprio agir. Entende-se que temos, para além dos animais, guiados apenas pelo instinto, a prerrogativa de determinarmos os rumos da nossa vida, através do que os gregos chamavam de logos, que nada mais é que a nossa inteligência, nossa capacidade de pensar. Quando pensamos sobre nossas ações, estamos no campo da moral. A ética encontra-se, também, dentro do campo da moral, e representa aqueles critérios que usamos para decidir a vida que viveremos, em detrimento de todas as outras possíveis. Então, ética deve ser entendida como um conjunto de valores e crenças que julgamos mais adequados para guiar-nos em direção à vida boa, ou à melhor maneira de viver. Neste sentido, as palavras “amoral” e “antiético” não fazem sentido na humanidade, pois amoral é o animal, que não pensa para viver. E não é possível ser antiético, buscar a pior maneira de viver, pois somos, como diria Spinoza, instâncias de conservação das próprias potências, por definição, não agimos contra a nossa natureza. Portanto, não podemos ser antiéticos.
"Vivemos na sociedade do fetiche, de endeusamento do produto que adquire vida própria a ponto de reger as vidas e as opiniões dos indivíduos"
EC – Na sua opinião, as demandas da sociedade contemporânea por consumo, prazer e notoriedade evidenciam o quê? 
Clóvis – A demanda, ou a busca por prazer e notoriedade marcam inequivocamente o gênero humano. Desde sempre, ao menos na sociedade ocidental, o homem precisou destacar-se, precisou buscar o prazer. Em algumas escolas filosóficas, a busca do prazer é verdadeiro bem existencial, critério último de vida boa. A grande diferença da atualidade em relação à história é que todas as relações humanas, em qualquer sentido que sejam tomadas, são fortemente permeadas pelo consumo e por produtos. Com o prazer e notoriedade não poderia ser diferente. Todos os prazeres humanos estão, hoje, associados a produtos, a marcas. Desde comer até o prazer sexual, recheado de brinquedos e fetiches. Vivemos na sociedade do fetiche, que nada mais é do que a negação da mercadoria como mercadoria e o consumo por atributos, que vão para muito além daqueles que a mercadoria comporta em si mesma. É o endeusamento do produto, que toma vida própria e chega a ponto de reger as vidas e as opiniões dos indivíduos de nossa sociedade.
EC – Quais são as premissas de “vida boa” elencadas no livro A vida que vale a pena ser vivida, escrito em parceria com Arthur Meucci? No lançamento, o senhor frisou não se tratar de um livro de autoajuda. Por quê?
Clóvis – No livro, apresentamos dez reflexões sobre a vida boa. Sobre os critérios existenciais para se viver bem. Cada um pertencente a um filósofo ou escola filosófica. Percorremos um caminho que vai desde a Grécia antiga até o início do século 20. O livro é exatamente o oposto do que é um livro de autoajuda. Enquanto que este último tem como premissa o conhecimento inequívoco do todo problemático e das soluções infalíveis e estritamente adequadas aos problemas, a postura filosófica é da reflexão e da dúvida. É a postura da desconfiança. Não oferecemos dez maneiras de se dar bem. Oferecemos dez pensamentos sobre a vida, dez formas diferentes de pensarmos nossas condições existenciais. Nenhuma delas promete a felicidade eterna. Esperamos que os leitores possam extrair do livro um arsenal existencial que o fortaleça de maneira real para enfrentar os desafios do mundo, pois, como não cansamos de dizer, “o real é criativo para agredir”.

EC – EC – Há uma demanda por ética no mundo corporativo? Quais são os conflitos enfrentados pelos empresários?
Clóvis – A demanda por ética no mundo corporativo existe, mas, em muitos lugares, não passa de fachada. De programa de responsabilidade social, tão enganador quanto a ideia de qualidade de vida, sempre imposta, sempre padronizada e vinda de fora. O que percebo é que algumas empresas verdadeiramente buscam pensar suas ações e seus caminhos, mas outras querem, em um comitê de ética, um instrumento político de validação das condutas adotadas por critérios que são alheios aos estipulados em códigos e valores organizacionais. 
EC – O lobby é lícito?
Clóvis– No Brasil, o lobby é proibido. Nos EUA, é permitido. Mas a questão do lobby vai muito além das estratégias de convencimento e daquilo que se possa entender por este termo. No Brasil, as práticas seguem a criatividade pela qual somos famosos no futebol. Não é só uma questão de políticas públicas, mas embrenha-se no mundo privado das maneiras mais estarrecedoras possíveis. Recentemente fui apresentado como um homem que pensa ‘fora da caixa’. Lisonjeado pelo que entendi ser um elogio, complementei: quero ser aquele que faz os furos na caixa, para que quem esteja lá dentro possa também ir para fora. Com esta característica, minha palestra tem sido requisitada por empresas de muitas áreas diferentes.

EC – Como conciliar ética e o toma lá dá cá do universo político?
Clóvis– Deve-se entender a ética como a escolha dos critérios morais para viver a vida. O que acontece no mundo político é um choque entre duas diferentes concepções de ética. Aquela que prevê critérios como o bem comum e o interesse do povo e aquela que prevê a glória e o sucesso pessoais. Todos os escândalos políticos têm como pano de fundo este conflito que eu chamaria de conflito primordial do cargo público. Conceber mudanças no comportamento político só será possível quando a profissionalização do mundo dos políticos ocorrer no sentido de uma ética voltada à população.
EC  O senhor é assessor do Conselho de Ética da Presidência da República. Como surgiu esse encargo e a que tipo de aconselhamento o senhor é demandado? 
Clóvis– Viajo a Brasília com certa frequência para participar de debates e de fóruns promovidos pelos mais diversos órgãos da União. Sou sempre convidado, não possuo vínculação formal, mas a minha presença lá é constante. Meu trabalho ali não difere muito daquilo que faço na academia e no mercado. Trago análises éticas baseadas na filosofia aos problemas que me são levantados.
EC – Diante do recente debate acerca da obrigatoriedade ou não do diploma para o exercício da profissão de jornalista, como o senhor – professor da área da Comunicação – entende que isso possa afetar a qualidade da informação oferecida à sociedade?
Clóvis– Enquanto que o diploma confere certa legitimidade ao profissional, atrelar a ele a competência do empregado é temerário. Para muito além do diploma, há que se medir e considerar, por exemplo, a qualidade do ensino, tão desvalorizado no país, o tipo de oferta de diploma que se pratica, o conhecimento do candidato etc. É incontestável que o papel do jornalista na sociedade midiatizada em que vivemos tem um impacto social enorme. Mas pela experiência acadêmica que tenho, desconfio que nem o diploma garanta que jornalistas, pouco ou muito experientes, tenham noção desta responsabilidade que o impacto de sua profissão traz consigo. O exemplo está aí, num domingo à noite, em que se fez de tudo para conseguir imagens do goleiro Bruno e, com isso, prejudicou o andamento das investigações, menosprezando o impacto da veiculação em favor do interesse imediato da audiência e do lucro do anúncio (refere-se à reportagem do Fantástico, que obteve depoimento do goleiro Bruno Fernandes, suspeito de assassinato, com uma câmera escondida).
EC – O senhor afirma que a escola privilegia o conhecimento em detrimento da formação dos alunos do ponto de vista da cidadania, fecha os olhos para a subjetividade. Por quê?
Clóvis – Creio que o ambiente escolar, com raras exceções, toma educação por treinamento. A perspectiva é a de preparar a criança para um mundo que a engolirá, para um mundo que é como é, tão mais forte que cabe a nós nos adaptarmos a ele desde pequenos. A perspectiva é, ainda, a de uma vida que não vale nela mesma. A escola prepara para o vestibular, a faculdade, para o emprego, o estágio para a efetivação, a efetivação para a promoção, a promoção para glória e a aposentadoria, e aí a vida para de ter rumo e surge uma angústia, que é justamente a indecisão existencial, pela falta de objetivos a perseguir. Esta é a vida que a escola inicia. Porque não forma o cidadão. Não ensina, ou não proporciona a oportunidade de o aluno pensar a vida em ato. Pensar o presente, viver por viver, agir no instante, e não ‘em função de’. De um lado, faz isto por estar a serviço do status quo. Depende, como quase tudo no mundo, do capital e, a rigor, é ele que determina qual a função de tudo na sociedade.
EC – Como desatar esse nó?
Clóvis – Desatar esse nó é uma tarefa dificílima. O professor que propõe métodos e posições diferenciadas é, com frequência, repreendido e desestimulado. Preso pelo vínculo empregatício, recua, pois sabe que haverá outro mais dócil para substituí-lo. A solução, talvez, possa passar pelas entidades de classe e pelas associações escolares, propondo discussões sobre aquilo que possam buscar como a verdadeira formação de pessoas, e não de candidatos.
EC – Em que sentido a escola se omite? 
Clóvis – A escola, muitas vezes, esquece da formação do ser humano. Muito preocupada com desempenho e objetividade, transforma-se no labirinto que o aluno deve percorrer para chegar ao vestibular. Em vez disso, poderia ser a arena que o transformaria em um ser pensante, que reflita, que seja capaz de mudar o mundo efetivamente, se julgar necessário, e não apenas mais um peão a serviço daqueles que dominam as relações sociais.
EC – Os professores contribuem com essa realidade ou são levados por ela?
Clóvis – Os professores têm sua parcela de culpa, mas contam com atenuantes, sem dúvida. São de certa forma pegos no redemoinho das diretrizes educacionais defendidas pelas organizações escolares e, pela condição de empregados em que vivem, têm pouco poder para fazer a situação se modificar.
EC – Na sua opinião, como as escolas particulares lidam com o paradoxo existente entre missão e interesse econômico?
Clóvis – Lidam dando total prevalência ao interesse econômico. Não por uma questão de maldade ou perversão, mas frequentemente por uma questão de sobrevivência. As escolas têm consciência de que uma proposta muito diferente da atual tende a gerar estranhamento, e o temor de perder alunos acaba fazendo com que elas sigam o fluxo, buscando se destacar na eficiência de seus programas, mas os critérios continuam os mesmos, apenas exacerbados. Esta espiral acaba por dificultar também qualquer mudança que se pretenda fazer isoladamente, ou de forma pioneira.
" A corrupção na política resulta do choque entre
EC – Por que a escola é tão pouco atrativa para as crianças e jovens e, para piorar, proliferam os casos de bullying e violência contra o professor?
Clóvis – A autoridade do professor não existe mais. Pois o aluno tem cada vez mais a consciência de que o professor está a seu serviço, especialmente quando toma conhecimento das relações financeiras que envolvem o ambiente escolar. Ao saber claramente que suas condições econômicas são extremamente mais favoráveis às de seus professores e, tendo no dinheiro uma medida (fetichizada) do valor das pessoas, o aluno de escola particular, por exemplo, passa a desrespeitar o professor e pode, comumente, contar com o apoio da administração da escola que, medindo a situação em números, deixa dominar o medo de perder o aluno, mais valioso que o professor. Já no sistema público, o problema é mais difícil de explicar. Obullying contra o professor tem também relação direta com a perda de autoridade do professor, mas que não conta com a vantagem econômica, em termos gerais. O fenômeno envolve variáveis sociais que vão desde o descaso governamental em atender necessidades básicas até uma fraca percepção do valor da educação para possibilitar uma vida melhor.
EC – Em que ponto a filosofia, desmistificada, pode contribuir? 
Clóvis – A filosofia desmistificada ajuda-nos a entender melhor as relações sociais, e analisar os fenômenos menos pelas aparências e mais pelo seu conjunto e características subjacentes e escondidas do olhar menos preparado.