segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Algo errado na água...

Assim como a passagem de argentinos e as escaldantes tardes de sol, uma outra marca do verão uruguaianense têm sido a presença das cianofíceas na água.
No mínimo desde 2002, nos períodos de déficit hídrico (que nome legal e sofisticado para "seca" e "estiagem"!??!), as algas azuis entram em nossas casas e mudam o odor e o sabor da nossa água; sem falar nas disfunções gastrointestinais atribuidas ao"gosto da água".
Mas e não é que essas vilãzinhas azuladas voltaram? E viraram parâmetro para atestar a qualidade do nosso serviço de água.
Apesar do desconforto com a presença delas em nossas torneiras e chuveiros é preciso esclarecer: a CORSAN não possui um criatório de algas, não às mantém em cativeiro e nem aplica algas ao tratamento da água. É preciso dizer isso porque do jeito que falam, às vezes, parece que é isso mesmo!

ALGUMAS VERDADES
As algas azuis são mesmo nocivas à saúde.
Suas neurotoxinas e hepatotoxinas atingem o sistema nervoso e podem causar os seguintes sintomas: irritação na pele, olhos, ouvidos, lábios, garganta, náuseas e vômitos; e em casos de maior exposição ou sensibilidade; hepatite, dormência e paralisia nas extremidades do corpo.
Segundo técnicos da área de saúde, nos níveis que encontramos algas na água após o tratamento e desinfecção da mesma, o risco de contaminação énulo.

Mas porquê tem ocorrido a proliferação sazonal desses microorganismos?
Em períodos de seca e com o afluxo de esgoto não tratado e fertilizantes residuais das lavouras ao longo do Rio, as cianobactérias fazem a festa.
Produtos como a uréia, presente nos agrotóxicos e defensivos agrícolas, funcionam como ração para as algas. (para saber mais sobre algas em geral, além do bom e velho Google, clique aqui).
Nestes períodos de proliferação, a água bruta do Rio Uruguai que é uma das melhores do estado, chega a ter 4 mil células de algas por ml de água coletado (!!!). O procedimento de purificação realizado então pela Estação de Tratamento em Uruguaiana reduz essa quantia para algo entre 2 e 4 células por ml de água. Utiliza-se para isso a aplicação de carvão ativado, o que aumenta o custo do processo de tratamento em até 3 vezes. Esse valor só nãoé repassado parta a conta do usuário pela política de compensação e subsídios internos da CORSAN (empresa pública)*.

E ISSO TEM JEITO?
Conforme o chefe do IBAMA, em Uruguaiana, Maurício Vieira de Souza, os fatores que contribuem para a aproliferação das algas azuis são o déficit hídrico,as águas das lavouras ricas em nitrogênio e os dejetos sanitários não tratados. "No mundo, não há solução técnica disponível para o problema de proliferação de algas azuis".(leia nota de reunião na Câmara)
Ao longo de 2008 algumas reuniões e audiências Públicas começaram a debater sobre o assunto.
Com a presença e envolvimento do IBAMA, CORSAN, Ministério Público, Ministério da Saúde, Prefeitura , Câmara Municipal e a população, em linhas gerais, apontou-se como possíveis encaminahmentos:
- gestão integrada dos recursos hídricos através dos comitês de bacia;
- política de Saneamento para a Bacia do Rio Uruguai, acessando, inclusive recursos do PAC;
- ações conjuntas entre Poder Público e produtores rurais no sentido de fiscalizar o uso, as quantidades, a composição e o escoamento adeqüado dos fertilizantes nas lavouras.

CURIOSIDADE
Alarmados pelas algas,técnicos do serviço de abastecimento de água em paso de los Libres, na Argentina, acorreram à Uruguaiana em busca de infromações.
Aqui e lá são coletadas as mesmas águas, do mesmorio. A diferença é que o tratamento feito aqui, reduz-se para 3 ou 4 células de alga / ml d eágua; já na vizinha paso de los Libres a redução alcança de 1000 a 1200 células por ml de água (!) Imagina o gosto dessa água??? haja paciência...
Orientados pelos técnicos daqui a usarem maiores quantidades de carvão ativado,os técnicos argentinos disseram: "Não podemos aumentar pois isso aumenta os custos do tratamento e,por consequência, afeta os lucros da empresa."**

Uma outra curiosidade, apesar de também serem conhecidas com algas azuis, apenas metade das espécies de cianobactérias apresentam cor azul-esverdeada. O Mar Vermelho recebe este nome, pois, em sua superfície são visíveis enormes concentrações de algas azuis... vermelhas!


EM TEMPO:
* No Pl 006 consta a possibilidade de aumento nas tarifas em casos que não estejam ao controle da concessionária (só um lembrete).

**Em Paso de los Libres a gestão do uso da água é feita pela iniciativa privada.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Uruguaiana se enganará?

O Projeto de Lei 006/2009 de autoria do ExecutivoMunicipal aqui de Uruguaiana é tão polêmico que merece ser analisado com mais calma. É polêmico tanto pelo tema de que trata: o(s) uso(s) da Água; quanto pelos termos em que está colocado.

Em um programa de rádio de nossa cidade fui perguntado porque estava no Movimento pela Água Pública (leia aqui)? Ao que pude responder que estar nesse debate é uma responsabilidade minha como cidadão, como pai e como educador.
A reflexão e o cuidado com o mundo passa pela questão da água.
Enquanto vários lugares do mundo já viveram o desatre da privatização da água - ou da concessão à iniciativa privada como quer o eufemismo tucano - Uruguaiana poderá ser a primeira cidade do estado a privatizar esse serviço essencial. Em alguns lugares do mundo, inclusive no Brasil, a gestão privada dos recursos hídricos, água potável e esgotamento sanitário, em geral, levou ao aumento de tarifas e à queda da qualidade dos serviços prestados. Em lugares como Bolívia e Argentina a situação chegou às raias do levante social, com alto grau de mobilização popular para a reestatização do serviço.
O Uruguai, por exemplo, incluiu na sua Constituição uma emenda que coloca a água como bem "indisponível à privatização"; cláusula também encontrada na Constituição do estado do Paraná.

Outro elemento importante: a principal empresa no mundo que tenta abarcar ese setor é a mesma que desde 2007 tem publicamente assediado e negociado com nossa cidade; trata-se da Odebrecht, que também fez ofertas para assumir o serviço em outras cidades do estado. O curioso é a grande coincidência de que todas as cidades que receberam (e recebem) investidas de tal empresa estão sobre o aqüifero Guarani, trazendo à tona uma preocupação estratégica ainda maior.

Para um tema tão abrangente e polêmico, uma pressa demasiada
Na posse para este segundo mandato o prefeito já havia anunciado que traria este tema. O contrato com a CORSAN vigora em termos precários apenas para garantir a prestação do serviço contínuo à população; seu prazo verdadeiro chegou ao fim em setembro de 2008 e, notificando devidamente, a Prefeitura não permitiu a renovação automática. Acontece que existe uma legislação renovada sobre a água e sobre o saneamento básico que aponta algumas obrigações mas também deixa alguns vazios de interpretação. É matéria bastante vasta. Alguns vereadores já manifestaram o limitado acúmulo da questão. A cidade em geral ainda tem muitas dúvidas. Mesmo assim a prefeitura encaminha o PL 006/2009 no fim da tarde de quinta-feira, 29/01, e a Câmara terá sessão extraordinária para votar esse PL na terça-feira, dia 03/02! Pouco tempo!

Algumas questões provocantes!
A primeira delas é a antipatia manifesta pelo Prefeito com a CORSAN. Se pela imprensa já são conhecidas as críticas ao serviço da CORSAN, reforçadas por um estranho (apesar de conhecido) silenciamento da maioria dos veículos de comunicação locais, agora essa antipatia transparece no próprio Projeto de Lei.
Desde a justificativa, distorcendo fatos comopor exemploos tempos de concessão para o tratamento de esgoto. O prefeito afirma que há 40 anos a CORSAN está aqui e não resolveu isso, quando o contrato específico para tal atividade data de 2001.
Outro fato estranho é a afirmação de que os custos para sanear toda a cidade chegam a R$ 150 milhões! Sendo que a CORSAN, nas previsões que fez, junto com o Poder Executivo Municipal e com a Promotoria Pública, há poucos anos atrás, apontava para recursos na ordem de R$ 40 milhoes (menos de um terço do que afirma o Prefeito hoje). E pior, há pouco mais de duas semanas, no site da Prefeitura foi divulgada uma surprendente consultoria que afirmava que seriam necessários R$ 130 milhões, ainda menos do que o que tem sido dito nos últimos dias. EM TEMPO: o site da Prefeitura está fora do ar, pelo menos desde sábado 31/01.

Mas como não é nosso papel advogar pela CORSAN (apesar de que, nessa conjuntura, defender a água passa pela defesa da CORSAN e pela cobrança de uma efetivo controle social e eficiência da empresa), quero elencar apenas alguns aspectos do PL zero-zero-meia que, de relance, chamam a atenção:
Ele aponta para que "nos primeiros 12 meses" a tarifa da concessionária desse serviço deverá ser de no máximo 90% da tarifa praticada pela CORSAN. Além de deixar margem para os 29 anos restantes do contrato quando a empresa poderá fazer a "farra" nas tarifas, também abre a possibilidade de incidência de tributos que encarecerão o serviço.
o Projeto é vago em relação à tarifa social, apontando para a possibilidade de o Poder Público Municipal subsidiar a tarifa para a população de baixa renda. Dentre esses subsídios lembramos também da abertura para que a nossa Prefeitura arrecade valores, inclusive empréstimos, e invista no saneamento e DEPOIS a concessionária fará o ressarcimento aos cofres públicos. Muy amigo! Estaremos dispostos a arcar com esse risco? Investir no que seria (será) atribuição da concessionária do serviço, agindo praticamente como avalista para empresas de capital sabe-se lá de onde?
E, repito, a experiência privatista deu mostras de sensível QUEDA na qualidade do serviço prestado.

O PL merece e precisa de um olhar mais aprofundado, por isso deixamos aqui o pedido para que todos cidadão e cidadãs, eleitores e eleitoras, façam contatos com os vereadores/as e com a Prefeitura EXIGINDO a retirada deste projeto para que haja o debate e o conhecimento integral de seus termos. Faça contato com a Câmara Municipal e vá a Sessão na terça-feira dia 03/02, as 9 horas da manhã! Afinal de contas, prudência e canja de galinha já era receita da minha avó no século passado, e nunca fizeram mal a ninguém.

*** em breve: um pouco sobre a história das "algas" e investimentos da CORSAN***

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Férias curtas... curtas as férias...

Bueno! Retornei já essa semana ao IEPF (acesse no orkut) após 10 dias de algum descanso. Entre lides patermas e algum contato com o povo freireano que ficou por lá, pude descansar um pouco sim.
Sem sair da fronteira, Luciane e eu pudemos caminhar pelas manhãs (já quentes antes mesmo das 8 horas!!!), após deixarmos a Poliana na "escolinha" ou aos fins de tarde. Deu tempo para fazer algumas visitas (não todas que devia, bem longe disso, mas algumas). Deu tempo de criar blog e começar a postar nesse mundão aqui! Alguma leitura sem compromisso nem horário, bastante internet pra conhecer melhor os blogs e as "blogueiragens" - um dia vou ficar bom! Pracinha e caminhada com a Poliana, muita correria e molecagem (puxa! como isso faz falta!)

Aconteceu também uma Oficina de Cinema que acabei perdendo de fazer; mas fui na Mostra um dia e pude trocar umas idéias com alguns camaradas que participaram da Oficina. Coisa muito legal pra nossa "atalaia da Pátria", tão carente de eventos culturais. Aliás esse projeto que rolou por iniciativa do Cibe Clube (vou trazer mais dados sobre ele) e contou com grana pública foi a ocupação e implementação de um programa que há alguns anos consta do orçamento municipal mas acaba não sendo empregado e depois vira suplementação pra sei-lá-oquê a prefeitura quizer. Com a ASU já tínhamos tentado fazer funcionar as "oficinas de Verão" que finalmente sairam do papel!

Ainda no campo da Sétima Arte, durante as férias aproveitei para assistir dois filmes: um deles eu tinha em casa há mais de um ano e nunca havia assitido. Assisti! É emocionante e provocador! Trata-se de Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton, baseado no livro de mesmo nome escrito por Frei Beto. O assunto é a ditadura militar e a participação de freis dominicanos em ações de resistência à ditadura. Desse pano de fundo histórico emerge uma declaração de profundo amor ao país, à humanidade e à radicalidade dos escritos e ensinamentos evangélicos. Com belas interpretações, em especial de Caio Blatt no papel de Frei Tito, um mártir da democracia e dos direitos humanos no Brasil e no mundo (sugiro outrasleituras também !)


Prece para frei Tito
O que você pensou
quando pendurou finalmente
o laço da sua dor?
Perdoou os algozes,
redescobriu a vida
num último gesto de amor?

O que viveu em seus sonhos
em tantos momentos bizonhos,
em tantos medos gerados,
virtualizado o pavor?

Como seguir enjaulado
por um medo engessado
em um tempo amarrado
numa vida sem cor?

Reencontraste teu Deus,
revistes teus sonhos,
abdicaste do amor?
Laurenio (lausombra@hotmail.com)
Assistir ao "Batismo" é obrigatoriamente tomar partido, emocionar-se, orgulhar-se! Ao final do filme, olhares marejados, Luciane e eu nos olhamos e dissemos: "Ainda bem que nossa filha não vive NESSE Brasil", e acabamos descobrindo como que por encanto, que devemos muito a Tito. O silêncio que nos segiu foi do tamanho do compromisso que devemos ter com essa dívida!

O segundo filme era outra coisa boa que eu estava no aguardo para conferir: foi o "Blindness" - Ensaio sobre a cegueira tem sido muito comentado e está com boa repercussão, trazendo mais leitores para o Saramago e mais prestígio para Fernando Meirelles. É uma fábula, uma metáfora. Trata da cegueira humana, uma cegueira ficcional mas que pode muito bem ser uma composição com a cegueira do modo de vida, do pensamento único e das hegemonias modernas. Quando todos só veêm (ou deixam de ver) a mesma coisa, todos tem a mesma visão. Essa "igualdade", na estória, trouxe diferentes reações e nos leva a refletir - nas palavras de Saramago e pelas lentes de Meirelles - sobre nossos valores e até onde vão? E afinal, o que as pessoas fariam se não pudessem ser vistas?? Mas afora qualquer análise ou reflexão sobre o filme (não quero e nem consigo fazer isso, até porque eu queria destacar uma cena do filme mas aí acabaria contando o final e isso é tão chato!!!!), quero destacar a trilha sonora feita pelo grupo Uakti.
Quem pegar o DVD, após o filme procura nos extras a parte sobre o grupo e vê/ouve o filme com o som feito pelo grupo. Maravilhoso trabalho de extrair melodia de quase tudo!!!!!!!!! Poderia/deveria ser mais divulgado e conhecido, afinal o grupo já tem 30 anos de dedicação à pesquisa e produção de sons! E é brasileiro! Assistindo o filme não dá pra imaginar de onde vem cada som que "ilustra" as cenas. E ilustrar com sons, num filme que trata de cegueira(s), é mais uma grande - ainda que sutil - metáfora!
Quero concluir o roteiro desses dias de férias falando sobre comida!!!
Ao que pude me dedicar também foram as pizzas! E aqui quero confessar uma paixão: Pizza basca!

***Logo falo dessa Pizza, agora vou dar uma conferida no que rolou na abertura do FSM 2009!****

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Esse Ufa! provoca, hein???


Minha amiga Suely, do UFA!, é sempre uma figura instigante/instigadora. Muito por culpa dela tá aqui o SUB, barberiando na rede. Pois não é que ela segue provocando? Mandou agora um meme (ou será que não é meme?)que funciona assim:
"Quando receberes deves:
indicar mais dois blogs para participar;
indico o Seu Jorge e a Mônica (a rede nos permite ir ao mundo todo,mas indico dois aqui da terrinha)
postar no teu blog o que andas lendo; (isso é o que estou fazendo agora)
não podes avisar os blogs indicados; (eu juro que não aviso eles)!
o blog indicado deve comentar no blog de quem indicou como foi que ficou sabendo da indicação (se foi visitando o blog, se alguém contou, se pelo google reader...) (aí é com eles depois então!)
Explicado?? Vamos lá! Ao trabalho...
O Monstro de ErechimRecebi esse livro de presente, em agosto. Como estava na correria das eleições só fui ler mesmo agora em janeiro. É o trabalho de mestrado do Humberto. Fomos colegas na graduação. Grande figura! O piá hoje, além de mestre em História é professor da Rede estadual em Erechim-RS. O texto é uma proposta multidisciplinar, com aportes da História/Historiografia, Direito, Sociologia e Psicologia. Trata-se da História de Luiz Baú, envolvido numa série de crimes no interior de Erechim; colocou o terror na "colonada" lá por 1980 (primeiro crime em fevereiro de 1975). Com problemas mentais, cometeu crimes com assinatura - caracterizando-se assim como "serial" - foi perseguido e preso. O relato da perseguição e do cerco ao "Monstro" é permeado pelos relatos de moradores e moradoras da comunidade, em entrevistas ao pesquisador ou na retomada de depoimentos do processo na época. Revela o imaginário e a construção do mito e desvela o papel da imprenssa que, mais do que informar, preferia ganhar com o clima de medo e construiu a alcunha do "monstro de Erechim". o trabalho também permite uma análise do Direito Penal e do sistema prisional, com algumas mudanças ao longo de quase três décadas, sinalizadas ao longo do trabalho. É uma leitura interessante mas que no formato e no rigor acadêmico exigidos pela empreitada, tiraram um pouco do brilho do "contador de causos e histórias" que é esse gringo!!!
E na capa? Aquele vulto só pode ser do autor!!! A silhueta não condiz com a descrição do "Monstro".
Detalhe interessante do final da História: não se sabe o paradeiro de Luiz Baú; fugiu do IPF (Instituto Psiquiátrico Forense) em 1980 e nunca se soube do seu paradeiro nem se achou um cadáver que pudesse ser atribuído a ele, portanto: tranquem suas portas!!!!!!!!

Nesses tempos de Obama (já falamos tanto!) dei uma revisistada numas cartilhas antigas, da Consulta Popular, sobre política e relações inetrnacionais, tratando especialmente da política imperialista norte-maericana para o mundo. São de leitura simples e rápida, e com bons textos para as aulas de História e Geografia. A Política dos Estados Unidos para o Mundo e para o Brasil de Samuel Pinheiro Guimarães e O consenso de Washington: a visão neoliberal dos problemas latino-americanos de Paulo Nogueira Batista.


Paulo Freire é referência permanente! No ano passado, em virtude dos 40 anos da Pedagogia do Oprimido (leia aqui), li na íntegra, pela primeira vez o livro; e desde então é companhia constante na mochila, todo dobrado, riscado, amassado, com boas contribuições para a formação e a reflexão da/na prática pedagógica e social.





E uma indicação também. Já li faz tempo, mas gostei muito: é esse aqui. A autora é jornalista carioca, Iza Salles, e resgata a história de um tipógrafo de base anarquista que, na década de 20 do século passado, na formação do PCB, passa a amilitar no comunismo.Foi o primeiro brasileiro a pisar na URSSS após a Revolução de 1917 e, num Congresso Comunista, se envolve num jogo de intrigas que leva a sua expulsão do PCB. Vale à pena pela narrativa bem escrita, pela informação histórica e como reflexão sobre método e relações de poder.

Como só citei autores brazucas vou deixar dois nomes estrangeiros que gosto muito do que já li: Eduardo Galeano (sempre cito como meu escritor preferido e volta e meia tô re-lendo) e George Orwell (primeiro porque é tempo de Grande Irmão e outra que sempre tô me perguntando se não vivo na "Revolução dos Bichos"?)

***Gostei tanto da brincadeira que vou decretar: no mínimo uma vez por mês teremos um post com indicações de leitura aqui no SUB !

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Palavras de Barack


Aqui como lá, a figura do operário e do "negão" remetem pra mudanças nas posturas dos governos. Causam desconforto "nos de sempre"; nos brancos e refinados, de fina linhagem e bela estampa.
As figuras sozinhas de Lula e Barack não garantem os novos rumos. A experiência brasileira nos mostrou que GOVERNO e PODER não são necessariamente sinônimos e que diversos elementos delimitam e condicionam os avanços políticos de um governo.
Mas algo mudou! E não por acaso, Barack assume usando palavras bem conhecidas nossas. Assim como o Brasil de 2002, que elegeu Lula, mostrou a vitória da esperança sobre o medo, também os estadunidenses escolheram a esperança sobre o medo (...we have chosen hope over fear) nas palavras do próprio Obama no discurso de posse.

Mas vamos lá!
Obama manteve o clima de cordialidade, empatia e reciprocidade com o povo estadunidense. Por vários momentos fez menção a "con-cidadania", lançando mão de uma proximidade bastante grande do governante com os governados.
Mesma relação não foi construída por exemplo, ao referir-se aos EUA, ou a América, como gostam de dizer entre o Rio Grande e os Grandes Lagos.
Obama fez referência muito enfática a um passado ancestral, com apelos atávicos aos ideias e valores fundantes da nação ianque. Partiu do exemplo de sacrifícios e esforços dos destemidos colonos que desbravaram e desenvolveram a maior potência entre as Nações do Mundo.
Desta idéia Obama solidificou o compromisso dos EUA com o resto do Mundo. Numa clara alusão ao Destino Manifesto, deixou claro que o papel dos EUA no mundo deverá ser preservado, como país hegemônico; manda-chuva político-comercial-militar. Enfim, deixou claro que não abrirá mão da posição no cenário mundial (e ninguém esperava diferente, né?).

Ainda assim, foi capaz de assumir que o mundo mudou e, portanto, precisavam mudar também os EUA. Num gesto pragmático tentou acolher e aproximar adversários, jogando com um paradigma político de conciliação e superação de "conflitos mesquinhos e falsas promessas, às recriminações e dogmas desgastados que por muito tempo estrangularam nossa política". Logicamente faz referência aos democaratas e republicanos e não às outras forças políticas quase invisíveis ou em construção nos EUA (saiba mais aqui, aqui e aqui.
No rol de mudanças necessárias, Barack deixa claro que não será um neoliberal, pelo menos não um ortodoxo(!), e como receituário da crise apresenta o que podemos chamar de "New Deal" revisitado; coloca a questão de que o governo não deve se rpequeno ou grande demais, mas eficiente; aponta para políticas de pleno emprego, com obras públicas e uma rede de seguridade social "a la keynes
Na onda do multiculturalismo citado por Obama na raíz da fundação e na história dos EUA, Barack aponta para um relaxamento das animosidade no plano bélico, apresentou um plano de desocupação doIraque e voltou a fazer menção a isso na posse. Logo após inciar ao trabalho suspende (dá uma segurada!) em processos de prisioneiros em Guantánamo que também já foi sinalizada com fechamento em até um ano.

Um novo nível de relação internacional também passa pelas propostas de estudar formas de erradicar (erradicar é um exagero meu! ele disse "diminuir") aameaça nuclear, controlar o aquecimento global e buscar outras fontes de energia (Nós iremos utilizar a energia do sol e dos ventos e do solo para impulsionar nossos carros e fábricas // We will harness the sun and the winds and the soil to fuel our cars and run our factories).

Mesmo com várias sinalizações de uma possibilidade diferente, repito, a figura de Obama e seu(s) discurso(s) nãosão suficientes para mudar o quadro.

Alguns perguntam o que virá depois dessa festa e dessa esperança toda? Hoje temos apenas símbolos e expectativas, mas ainda quero ver essa história, porém, temo que depois acabe valendo a parte que achei mais preocupante do discurso, quando Obama disse: "Nós não iremos nos desculpar por nosso estilo de vida, nem iremos vacilar em sua defesa // We will not apologise for our way of life, nor will we waver in its defense".
E a gente já sabe o que significa o "estilo americano" e que custo ele pode ter para o mundo!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Yes! We can!

A posse de Barack Obama tomou conta do mundo hoje e certamente abre expectativas inúmeras sobre as respostas que dará o novo titular da Casa Branca aos problemas econômicos mundiais e aos questionamentos ao poderio bélico-político estadunidense.
Vemos ainda muito ceticismo quanto à possíveis mudanças nas relações de poder e nos métodos de atuação dos EUA; muitos acreditam que Barack apenas continuará a gestão dos "negócios" do Tio Sam, utilizando todas as formas possíveis de manutenção da sua supremacia e hegemonia.


Eu sou daqueles que pensam que muitas das respostas não podem se dar por previsões. Política e relações internacionais não podem ser espaço para futurolgias.
Penso, porém, que alguns elementos são emblemáticos de novos paradigmas, isso sim.
Afinal a figura de um homem negro, jovem, com a história familiar que tem, que assina "Hussein" entre seus nomes mais conhecidos, com educação e influência islâmica na sua formação, filho de Queniano ocupar a presidência dos EUA é pouco comum; impensável há menos de meia década. Simbolicamente temos uma figura diferenciada ocupando o cargo dito mais importante do planeta.

Barack também elegeu-se num vácuo de legitimidade de Bush. Guerras sem fim e crise especulativa ajudaram a derrubar os republicanos e alternarem, após dois mandatos de George W., com os democratas.
Então, Obama emerge de uma conjuntura economica,financeira,politica e social muito dificil,o que deu a ele o beneficio da duvida face ao despreparo e conservadorismo de seus adversarios (McCain e a Miss Alaska).

Ao longo da história os democratas, com sua política relativamente liberal, deram melhores respostas para os problemas onde a atuação estadunidense determinava maior ou menor tensão. Caso exemplar o de Carter, que inclusive estabeleceu relações diplomáticas com Cuba.
Cuba aliás, que comemorou 50 anos da Revolução é o principal teste no continente, para a capacidade de distenção do havaiano Barack. Aguardamos pela concretização do diálogo mundial e para o fim do embargo assassino imposto à ilha.
Também os recentes conflitos na Faixa de Gaza e o recrudesciemnto da violência oficial de Israel parece aguardar um gesto de Obama. O Likud, setor majoritário e de extrema direita da política israelense começa a reorganizar suas posições internas, diminuindo espaços dos fundamentalistas e respaldando posiçõe s mais pragmáticas e lideranças com capacidade de fazer concessões numa negociação com a ANP em caso de mediação de Washington.

Uma boa maneira de avaliar expectativas possíveis para este governo é uma leitura atenta do discurso de posse proferido hoje. Vou fazer uma leitura mais detida e posto algo amanhã.

Por hoje vimos bastante euforia em diversas partes do mundo e só as bolsas de valores - aquelas velhas desconhecidas - em depressão (também?!! quem entende essas Bolsas?? Haja paciência!!)