sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Civismo a la carte


Li a postagem do blog Nova Esquerda sobre as manifestações cívico-cômicas no 7 de setembro. 

Certamente há espaço para um interessante debate a partir do que foi exposto pelo articulista e muito ainda há o que dizer e fazer. Em especial, penso que é necessário ter cuidado com as generalizações (por mais óbvio e redundante que seja dizer isso) e com o maniqueísmo que insistem em nos enfiar goela-a-dentro. Sem "puritanismos", é preciso reconhecer o esgotamento das vias tradicionais e a necessidade de se fortalecer a luta popular por fora das instituições e partidos. Pelo menos esse é o caminho que me alenta ultimamente, que me mantém na esperança.

Discernir as motivações e os métodos de cada movimento é tarefa da militância sincera que ainda insiste em acreditar na nova mulher e no novo homem, construindo a nova sociedade.

Enquanto as redes sociais mobilizam atos "cívicos" como esse, tb divulgam e incentivam ações diretas como as recentes ocupações de reitorias por todo o Brasil, inclusive aqui em Santa Maria. As redes, enquanto ferramenta de comunicação e debate podem potencializar as lutas, mas nunca substituir a ação concreta.

Toda a reação ao oportunismo da direita precisa de uma dose alta de senso crítico para não ficar no adesismo puro e simples, desviando para o governismo cego que tanto tem contaminado lutadores e lutadoras nos últimos tempos.

No Blog, comentei o que segue abaixo. Reproduzo aqui pela demora na liberação por parte da moderação do Blog.

Lamento o golpismo rídiculo orquestrado no 7 de setembro. Lamento as manifestações “moralistas”/”moralizantes” que os veículos da imprensa monopolista tentam fazer (mas onde estavam no episódios Jaq Roriz? e aqui no RS? Pq esse discurso não retumabava no Gov Yeda?).Certamente este movimento está cheio de bem-intencionados inocentes úteis, assim como no PT (partido que centraliza um governo de pseudo-centro-esquerda).Se o PT é realmente “o único partido de esquerda (sic) com força para combater os malandros golpistas”; é ainda maior a responsabilidade e a culpa por manter os privilégios dos tais “malandros golpistas” com os quais o PT anda entrelaçado tão cordialmente. (Certamente enxergo variações importantes entre o PT, partido do qual fiz parte, e a tucanalha e seus derivados, mas, no geral, o que vejo foi uma opção (traição?) de classe).Sem partidos! Reinventar a sociedade! Movimento Popular na rua! Para subverter e reverter!


EM TEMPO: incluo mais uma manifestação sobre os movimentos do dia 7. Vem do SUL21.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

"Eu insisto em caminhar!"

Caí de gaiato numa entrevista para o Jornal do Almoço aqui de Santa Maria. 

Como de costume nestas situações de luto coletivo, a imprensa tradicional - o PIG - tende a criar e amplificar um clima de tensão e medo imobilizadores, que não permitem - nem querem - o aprofundamento das discussões sobre violência/segurança pública.

Não se questiona as motivações da delinquência; não se buscam alternativas nem propostas. Apenas reverberam a linha editorial de espalhar o medo!

E o pior de tudo não é o que acontece nas entrevistas de rua. O pior ocorre nas ilhas de edição de cada emissora e/ou retransmissora. Dos vários depoimentos colhidos na noite de segunda-feira pelo centro de Santa Maria todos apontavam para os "perigos" de se estar na rua" (sic); o temor que é "enfrentar as ruas"; alguns chegavam a apontar um certo "toque de recolher" sugerindo horários e locais nos quais as "pessoas de bem" ainda podem estar na rua com "menos risco".

Note-se que a cidade ainda guardava um sentimento de choque pelo trágico assassinato ocorrido um dia antes, no amanhecer do domingo, e também sensibilizada pelo Ato de Solidariedade realizado na segunda-feira pela manhã. Além disso, as perguntas da repórter não foram mostradas na matéria veiculada no dia 16/08 (terça-feira). 

Vejamos então como foi a conversa (quase na íntegra), dentro do que a memória permitiu guardar desde algumas horas atrás.

1ª cena: Vou atravessando a Praça Saldanha Marinho em direção ao Calçadão, de mãos com minha filha Poliana (4 anos), por volta das 20h30min. Noite já fechada, com o frio peculiar do mês de agosto. Avisto o câmera e a repórter fazedo algumas tomadas externas e, por isso mesmo, vamos dobrando para a esquerda para desviar dali.

2ª cena: A repórter e o câmera apressam o passo em nossa direção. Microfone em punho. Ar de preocupação e espanto, ela dispara: 
"O sr. acha que é seguro caminhar com uma criança a essa hora num lugar como esse?"
Ao que, apesar de me sentir quase que confessando um crime, respondi: "Sim. Acho!"

3ª cena: Não satisfeita com o certo ar lacônico do abordado, a repórter insiste na conversa (eu vou acabar cedendo algo útil para a edição!).
"Mas você acha que é possível andar pelo Calçadão?"
Sem pestanejar diante do óbvio:
"Sim. É possível sim."
 Isso não bastava para a proposta ediTAtorial da empresa.
"Mas tu passa por aqui com frequência? Não sente um pouco de medo?"
"Não. Não sinto medo. Moro aqui perto. Este é meu caminho (minha cruzada) já passei aqui  diversas vezes. Em diferentes horários: noite, madrugada, manhã cedo, tarde..."
Ainda faltava algo. Então, em tom apocalíptico, a repórter lança a informação (já sabida):
"Mesmo após a morte de um estudante aqui mesmo no Calçadão, ainda assim tu achas que a cidade é segura?"

Então, desatei:
"Sim. Apesar de lamentar a tragédia que aconteceu com o rapaz na manhã de ontem e várias outras tragédias das quais somos testemunhas e vítimas todos os dias, é preciso reconhecer a cidade como uma espaço de convívio coletivo, de espaço comunitário. A própria imprensa e a mídia amplificam um clima de temor e de insegurança na sociedade que, muitas vezes é exagerado, desnecessário. Esquecem de fazer a cobrança adequada e a responsabilização do Poder Público quanto à segurança ou, quando fazem, esquecem que segurança é muito mais que policiamento na rua (desde ontem o Centro está mais policiado), mas é preciso a garantia de várias políticas públicas e direitos (...). Este 'terrorismo' da mídia afasta as pessoas da rua, dos espaços de encontro. Eu ainda acredito na rua como local de convivência e de partilha coletivas. Por isso, eu ainda insisto em caminhar!"
E foi por aí a conversa. Acredito que desapontei a "linha" da matéria, até pq, apenas foi incluída a parte em que falo que passo pelo local com certa frequência; mas isso num tom de "Vejam! As pessoas não tem escolha! 'Precisam' passar por ali!"

Apesar disso, foi um exemplar caso de entendimento sobre o perfil dos veículos de comunicação das grandes redes.

No dia seguinte, chegou até mim um belo texto sobre a situação da violência/segurança em Lima, no Peru. Pelo caso e pela abordagem, poderia ser em qualquer lugar. Recomento a leitura no ADITAL.

Por enquanto, sigo aqui, com aquela velha predileção em sentir  os gramados (cada vez mais raros), as ruas e as calçadas da cidade batucando na sola dos meus pés. Eu insisto em caminhar!

Afinal, a praça é do povo como o céu é do condor! Não é mesmo?

*As fotos são do  álbum de Fabiano Dallmayer, no Facebook. Registro da manifestação do dia 15/08/2011.



sábado, 13 de agosto de 2011

Filosofia de Andejo




"Nesta jornada terrena, aprende muito quem anda. 
Sempre que a alma se agranda; a estrada fica pequena."   
L. Marenco

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A luta continua


Um pouco antes de ver este vídeo pensava nisso tb...

"A luta continua" não pode ser uma frase vazia;
reduzida a um jargão qualquer,
repetido à exaustão.

Dizer que a luta continua,
olhos nos olhos;
ombro a ombro;
é o reconhecimento aos que lutaram e lutam.

É a compreensão de que,
se algo já foi feito,
ainda há muito a fazer.

É a assunção
da nossa responsabilidade com o passado.
É a expressão
de nosso compromisso com o (um) futuro
(em construção) !

É por isso que a luta continua!

sábado, 23 de julho de 2011

...desejo de mundo!

"Eu tinha passado a vida toda dizendo adeus. Merda! Toda a vida dizendo adeus! Que acontecia comigo? Depois de tanta despedida, o que eu tinha deixado? E em mim, o que havia ficado? Eu tinha trinta anos, mas entre a memória e a vontade de continuar se amontoavam muita dor e muito medo. Eu tinha sido muitas pessoas. De quantas carteiras de identidade era dono?

Outra vez havia estado a ponto de naufragar. Tinha escapado de morrer uma morte não escolhida e longe de minha gente, e essa alegria era mais intensa que qualquer pânico ou ferida. Não teria sido justo morrer. Não tinha chegado ao porto esse barquinho? Mas e se não houvesse nenhum porto para esse barco? Vai ver navegava pelo puro prazer de andar ou por causa da loucura de perseguir aquele mar ou céu luminoso que tinha perdido ou inventado.

Agora, morrer teria sido um erro. Eu queria dar tudo antes que a morte chegasse, ficar vazio, para que a filha-da-puta não encontrasse nada para levar. Tanto suco ainda tinha! Sim, era isso o que tinha ficado em mim ao fim de tanto adeus: muito suco e vontade de navegar e desejo de mundo." 

Eduardo Galeano (Dias e Noites de Amor e de Guerra)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Na luta coerente pela educação (mas não QQER educação!)


Depois de catapultada à condição de celebridade nacional  e arrancar aplausos ao movimento grevista de várias redes de ensino no "Domingão do Faustão", a professora Amanda Gurgel continua repercutindo, com coerência, a luta em defesa da educação  pública, pela valorização d@s trabalhador@s em educação pelo comprometimento de 10% do PIB com financiamento da educação brasileira.


Abaixo reproduzo: 

Carta da professora Amanda Gurgel ao júri do 19º Prêmio PNBE

Natal, 02 de julho de 2011

Prezado júri do 19º Prêmio PNBE,

Recebi comunicado notificando que este júri decidiu conferir-me o prêmio de 2011 na categoria Educador de Valor, pela relevante posição a favor da dignidade humana e o amor a educação. A premiação é importante reconhecimento do movimento reivindicativo dos professores, de seu papel central no processo educativo e na vida de nosso país. A dramática situação na qual se encontra hoje a escola brasileira tem acarretado uma inédita desvalorização do trabalho docente. Os salários aviltantes, as péssimas condições de trabalho, as absurdas exigências por parte das secretarias e do Ministério da Educação fazem com que seja cada vez maior o número de professores talentosos que após um curto e angustiante período de exercício da docência exonera-se em busca de melhores condições de vida e trabalho.Embora exista desde 1994, esta é a primeira vez que esse prêmio é destinado a uma professora comprometida com o movimento reivindicativo de sua categoria.

Evidenciando suas prioridades, esse mesmo prêmio foi antes de mim destinado à Fundação Bradesco, à Fundação Victor Civita (editora Abril), ao Canal Futura (mantido pela Rede Globo) e a empresários da educação. 

Em categorias diferentes também foram agraciadas com ele corporações como Banco Itaú, Embraer, Natura Cosméticos, McDonald’s, Brasil Telecom e Casas Bahia, bem como a políticos tradicionais como Fernando Henrique Cardoso, Pedro Simon, Gabriel Chalita e Marina Silva.A minha luta é muito diferente dessas instituições, empresas e personalidades. Minha luta é igual a de milhares de professores da rede pública. É um combate pelo ensino público, gratuito e de qualidade, pela valorização do trabalho docente e para que 10% do Produto Interno Bruto seja destinado imediatamente para a educação. Os pressupostos dessa luta são diametralmente diferentes daqueles que norteiam o PNBE. Entidade empresarial fundada no final da década de 1980, esta manteve sempre seu compromisso com a economia de mercado. Assim como o movimento dos professores sou contrária à mercantilização do ensino e ao modelo empreendedorista defendido pelo PNBE. A educação não é uma mercadoria, mas um direito inalienável de todo ser humano. Ela não é uma atividade que possa ser gerenciada por meio de um modelo empresarial, mas um bem público que deve ser administrado de modo eficiente e sem perder de vista sua finalidade.Oponho-me à privatização da educação, às parcerias empresa-escola e às chamadas organizações da sociedade civil de interesse público (Oscips), utilizadas para desobrigar o Estado de seu dever para com o ensino público. Defendo que 10% do PIB seja destinado exclusivamente para instituições educacionais estatais e gratuitas. Não quero que nenhum centavo seja dirigido para organizações que se autodenominam amigas ou parceiras da escola, mas que encaram estas apenas como uma oportunidade de marketing ou, simplesmente, de negócios e desoneração fiscal.Por essa razão, não posso aceitar esse prêmio. 

Aceitá-lo significaria renunciar a tudo por que tenho lutado desde 2001, quando ingressei em uma universidade pública, que era gradativamente privatizada, muito embora somente dez anos depois, por força da internet, a minha voz tenha sido ouvida, ecoando a voz de milhões de trabalhadores e estudantes do Brasil inteiro que hoje compartilham comigo suas angústias históricas. Prefiro, então, recusá-lo e ficar com meus ideais, ao lado de meus companheiros e longe dos empresários da educação. 

Saudações,Professora Amanda Gurgel

PNBE – Pensamento Nacional das Bases Empresariais

Quer saber sobre o tal PNBE?  Acesse o site http://www.pnbe.org.br/ (inclusive a Carta é comentada e, de certa forma, rebatida. lá!)