terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

AS veias abertas da América Latina: o livro da minha vida

O que faz de um livro "O" livro da vida de alguém?


Seu conteúdo? O significado da experiência daquela leitura? As reações que temos ao ler/conversar com as páginas? Um pouco de tudo isso talvez.



E mais aquela incontrolável vontade de indicá-lo; anunciá-lo aos quatro ventos, pra todo mundo... repartir os prazeres daquela boa leitura...



Mas isso acontece com vários livros! O que, então, faz uma obra saltar à mente quando se fala em "livro preferido" ou "livro da sua vida"?
Não sei! Não faço idéia!

Vou tentar lembrar da minha história com esse livro...


Era 1998 ou 1999, portanto ainda no século passado, andava eu "ratiando" pela Biblioteca da PUC em Uruguaiana ("ratiando" mesmo, eu era meio rato de biblioteca!)... Passeava entre uma aula e outra de final de semestre, pelas estantes de História. Cruzei os olhos por um livro azul, capa dura, título em italiano; alguma coisa como "vene aperte dell'America Latina" . Folhei a edição em italiano, sem entender quase nada e algo me fez correr os olhos pela estante até chegar aos exemplares em espanhol e a uma meia duzia, um pouco mais talvez, em português. De pé, em frente àquela prateleira, fui lendo orelhas e prefácios que me trouxessem detalhes sobre o autor e a obra. Algo me intrigava ainda: uma estranha familiaridade com aquele título e com aquela capa!



Lógico que retirei aquele livro e levei para casa. Mais tarde acabei descobrindo que "As veias" estava presente, junto a outros livros, em um encarte do Rage Against the Machine, uma banda que eu ouvia muito desde 94 ou 95 (quem conhece sabe da atitude e do som dos caras, quem não conhece vai no link e desfruta! ou clica aqui). Hummm.. tínhamos algo em comum então!!!



A leitura foi logo me revelando quem era esse uruguaio chamado Eduardo. Com toda sua sagacidade e acidez na descrição satírica e crítica da história da formação do nosso continente, fez uma narrativa envolvente, daquelas que te leva dos bairros populares do Rio de Janeiro até as lavouras do Caribe; de um navio singrando os mares do nosso continente até os balcões de negócios do Norte; das selvas onde o povo camponês organiza sua resistência à United Fruit Co. até o ancestral ritual inca nas alturas peruanas... Desvela e desmonta os mecanismos e artimanhas da exploração colonial e do imperialismo; demonstra por que a riqueza da América Latina constituiu-se em sua ruína dentro de um sistema exploratório e excludente, desde os mitayos até os bóias-frias, do Pacto Colonial aos tratados de livre comércio...



É um livro que fez de mim um leitor melhor, um professor melhor e uma pessoa melhor do que eu seria se não o tivesse lido.

Por coincidência, em algum semestre posterior, em História da América II ou III, trabalhamos com essa bibliografia. Lembro que foi um grande prazer e tive a oportunidade de encerrar o seminário daquele ano com a "minha" leitura das "Veias", num distante sábado à tarde de 1999. Algo inesquecível !(pena que não tenho mais os relatórios e resenhas daquelas aulas).
Lembro que a professora era Rita Gatiboni, que encontrei anos depois num Fórum Social Mundial em POA, em uma oficina sobre Direitos Humanos.

No FSM, entre muitas outras coisas, sempre ia atrás das atividades com o Galeano.


A bibliografia do Galeano, com seus livros além de crônicas e artigos publicados pelo mundo todo, formam uma obra belíssima, unindo a sutileza do seu refinado humor e sarcasmo à dureza de sua crítica engajada e bem fundamentada. Uma beleza!


Baixe o e-book aqui (digitalizado e revisado pelo Coletivo Sabotage)

3 comentários:

Georgia disse...

Acabei de baixar e vou lê-lo depois. Obrigada.

Te enviei um email para a resenha do outro blog.

Abracos

Vanessa disse...

Alcir, livros achados assim, ao acaso, normalmente são gratas surpresas. Obrigada pela participação dupla na coletiva!

abraço

Janaina Amado disse...

Alcir, "As Veias Abertas" também foi um livro importantíssimo para mim, em muitos sentidos. Eu o usei demais em aulas, também, e os alunos sempre adoravam. Abraço, bom te conhecer via blogagem coletiva.